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Crónica

Vê lá se se nota que sou mulher e que menstruo uma vez por mês

Vê lá se estou suja, que todas as nódoas que nos envergonham se vêem ao longe, vê lá se se nota que sou mulher, que menstruo uma vez por mês. Ninguém dizia menstruação

Texto de Cristina Nobre Soares • 17/08/2016 - 14:47

Cristina Nobre Soares
Cristina Nobre Soares é “copywriter”, trabalha na Claro e escreve no blogue “Em Linha Recta”

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Tínhamos Educação Física às quartas e sextas-feiras. Nunca fui grande ginasta, mas gostava especialmente dos dias em que jogávamos vólei. Dias em que eu levava um top muito apertado por cima do soutien, para que não se notasse o peito a mexer quando saltava e corria. Para os rapazes não gozarem, grande leitaria, grandes bóias, a rirem-se, e nós, raparigas, a cruzarmos os braços por cima do peito e a falharmos os saltos por vergonha.

 

Mas não era só disso de que tínhamos vergonha. Às vezes chegávamo-nos perto da professora e dizíamos, muito baixinho, "hoje não consigo", estou com dores de barriga e ela acenava com a cabeça, tinha percebido o que queríamos dizer, não nos marcava falta e deixava-nos assistir à aula sentadas a um canto. Estou com dores de barriga. Nunca dizíamos, estou com o período. Se o dizíamos, era entre nós, baixinho, tipo segredo, a comermos metade das sílabas para não se notar. Também não nos queixávamos muito das dores. Para não se notar. E volta e meia perguntávamos, baixinho, vê lá se se nota o penso, ou, vê lá se estou suja.

 

E o verbo sujar a criar raízes nos nossos medos, a tornar-nos menos. Vê lá se estou suja, que todas as nódoas que nos envergonham se vêem ao longe, vê lá se se nota que sou mulher, que menstruo uma vez por mês. Que ninguém dizia menstruação. Só nas aulas de biologia. Aí, podíamos dizer, soava a limpo, não sujava a roupa nem dava dores. Lida nos livros, não tinha cheiro, não nos escorria por dentro, como nos escorre tudo o que nos envergonha. Era diferente, ninguém notava. E uma miúda da minha turma a ensinar-me como levar o tampão na mão até à casa de banho, assim ninguém percebe o que levas, e eu a escolher a bolsinha de plástico na drogaria, "ó mãe essa não, que se percebe que é para levar pensos, uma que não se note". Que não se note, que não se fale. E se falar, que seja baixinho, que as meias palavras parecem mais limpinhas. Pena que não percebamos que é o falar alto que nos vai limpando as nódoas que nos metem na cabeça.

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