Rafael Marchante/ Reuters

Crónica

Bombeiros: magoamos mais aqueles de quem mais precisamos

Enquanto os futebolistas recebem medalhas e os políticos subvenções, os bombeiros continuam a ser voluntários e a receber apenas agradecimentos espaçados. Por isso não trabalham por causa de Portugal, mas sim apesar dele

Texto de Hugo Filipe Lopes • 12/08/2016 - 13:58

Hugo Filipe Lopes
Hugo Filipe Lopes não é escritor porque não acredita na definição mas escreve porque não consegue evitar

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Por muito evoluído que Portugal aspire a ser, continuamos ainda e sempre a depender da boa vontade e da coragem dos homens e mulheres bombeiros, cujos esforços não valorizamos nem recompensamos devidamente. Talvez porque a maioria dos dirigentes, distraídos como andam com assuntos como as férias e o FMI, esquecem-se que não só as áreas verdes são o pulmão português, como também representam uma boa fatia de zonas agrícolas e residenciais, que para um país que pretende ser sustentável e já agora, subsistir do turismo, convém preservar a todo o custo. Até por causa duma coisa com que os nossos governantes não estão muito familiarizados, que é o futuro.

 

Deixar as corporações de bombeiros à mercê de donativos e fundos esporádicos ao invés de reconhecer o seu papel essencial à nação, tornando-os a todos profissionais, é mais um dos resquícios do Estado Novo com que nos habituámos a viver. Assim, temos governos que parecem dar mais importância a uma baixela de prata para convidados estrangeiros ou a submarinos inúteis do que ao serviço das corporações de bombeiros.

 

Talvez porque, os esforços dos bombeiros são mais apreciados quando são mais visíveis, e isto acontece sobretudo quando a catástrofe já está a bater à porta. No resto do tempo, os bombeiros tornam-se praticamente invisíveis para a opinião pública, já para não mencionar para os corpos dirigentes, sendo fácil não reparar nas suas acções em menor escala mas com a mesma regularidade, sejam elas salvamentos, desencarceramentos ou pronto-socorrismo. Além da actividade essencial para a prevenção que é o patrulhamento.

 

Provavelmente já é tempo de nos educarmos a nós próprios de forma a, em vez de ter um futebolista preferido, escolher um bombeiro como ídolo e recompensar todos como se estivessem a desempenhar uma actividade tão essencial para as nossas vidas como parece ser a de pontapear uma bola. Porque, contrariamente à maioria dos representantes do nosso país, estes homens e mulheres quando em missão oficial, não recebem recompensas milionárias. Aliás, na esmagadora maioria das vezes não recebem recompensa alguma que não seja mais fumo nos pulmões ou queimaduras no corpo. Isso e arriscar a vida longe da família e dos amigos. Dão literalmente o corpo ao manifesto pelo que acreditam, e para sorte de todos nós eles e elas acreditam que a sua bravura e determinação é suficiente para enfrentar todo e qualquer perigo, sejam chamas ou cheias. Apesar de todas as dificuldades que este país lhes coloca.

 

Quantos políticos ainda estariam a desempenhar as suas funções em circunstâncias destas?

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