Nelson Garrido

Crónica

A ditadura do politicamente correcto, Quintino e os ciganos

De que serve oprimir o vernáculo quando a ideia e o sentimento continuam presentes?

Texto de Hugo Filipe Lopes • 02/08/2016 - 11:38

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Recentemente o psicólogo Quintino Aires foi alvo de polémica por criticar abertamente a comunidade cigana, de uma forma que muita gente faz de forma velada. Deverá ser punido por isso?

 

Vivemos sob várias formas de ditadura, umas mais pronunciadas que outras, umas mais incómodas do que outras. Desde a económica à parental, existe de tudo. Mas nenhuma forma é tão ridícula como a ditadura do politicamente correcto.

 

Temos medo que as palavras ofendam. Um negro não pode ser adjectivado de preto em voz alta, tal como um obeso não pode ser gordo ou uma mulher, gaja. Chamar alguém que não pertença a essa etnia de cigano é ser discriminatório para uns e para outros — pelo mesmo motivo os cegos são apelidados de invisuais e os deficientes de pessoas incapacitadas. Mas de que serve oprimir o vernáculo quando a ideia e o sentimento continuam presentes? Preferimos continuar a habitar um mundo aparentemente limpo em que a sujidade se acumula debaixo do tapete, desde que os nossos olhos não sejam obrigados a contemplá-la? Desde que sejamos todos cordiais à superfície podemos apelidar o mundo de civilizado porque quando os ouvidos não escutam o coração não sente, pelo menos até o verniz estalar porque entretanto juntamos mais uma às várias camadas de repressão social que existe.

 

Terão as palavras de Quintino ofendido porque arejaram uma ideia que muita gente tem mas não a exprime?

 

Talvez a liberdade de expressão seja apenas aplicável quando ninguém é ofendido, o que é virtualmente impossível, pois citando Martin Luther King “para fazer inimigos basta dizer o que se pensa.” Algo que a maioria das pessoas hoje em dia parece ter perdido a capacidade de o fazer, de outro modo que não dissimuladamente.

 

Assim fomenta-se uma ditadura que, ao invés de discriminar negativamente, fá-lo de modo positivo, impossibilitando o que é considerado injúria, primeiro pela opinião pública e depois pelo direito, a classes de pessoas que parecem ser consideradas incapazes de defender o seu bom nome. Assim é com o "bullying" e assim foi noutros tempos com o corpo das mulheres, que era praticamente gerido pelos maridos, por serem consideradas seres demasiado fragilizados para o fazerem por direito próprio.

 

Onde termina a liberdade de expressão e começa a ofensa, e quem é que está capacitado para o decidir?

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