Algarve: destruir para dar lugar ao turismo

autoria John Gallo

// data 21/07/2016 - 13:31

// 20633 leituras

Na Ilha da Culatra —­ ilha-­barreira da Ria Formosa conhecida pela sua exuberante beleza natural e pelo já antigo núcleo piscatório —­ existem casas particulares de "segunda habitação" em risco de expropriação e demolição. A "Polis Litoral Ria Formosa", uma sociedade anónima de capitais exclusivamente públicos a quem José Sócrates atribuíu, em 2008, o poder de estabelecer regras vinculativas para a requalificação e reordenamento do território, é quem interpõe a acção que conduzirá a mudanças radicais na ordem dos centros habitacionais de Farol e Hangares. Através de recurso aos tribunais, alguns dos proprietários têm conseguido adiar a tomada de posse das construções que a "Polis" considera, unilateralmente, ilegais, mas temem não conseguir fazer frente à vantagem financeira e política da sociedade anónima. O fotógrafo John Gallo conviveu com os habitantes da ilha durante um mês, a pedido do jornal "The Guardian", e garante que a revolta é o sentimento que impera no seio das comunidades. "A Polis está sobrepor o seu poder financeiro e soberania aos direitos mais básicos das pessoas que lá estão", opinou John Gallo em entrevista ao P3. "Diz estar a intervir por questões ecológicas, ambientais, mas em muitos casos, após a demolição das habitações, não tem o cuidado de remover o entulho ou de tratar de evitar que o esgoto das casas vizinhas se mantenha a céu aberto e a escoar directamente na Ria. Não existe um cuidado ambiental." "Não um que justifique as acções que levam a cabo", sublinha o fotógrafo. "Os habitantes, em geral, concordam com a necessidade de reordenamento de território, mas temem que o verdadeiro objectivo da Polis não seja o que anuncia publicamente." Acreditam, sim, que a libertação de terrenos tem como objectivo a sua rentabilização através da permissão de construção de empreendimentos turísticos. "A ilha da Culatra é um paraíso. Tem cerca de oito quilómetros de extensão, as praias são paradisíacas, é um local muito recatado e que não tem movimento automóvel. Os poucos residentes suspeitam que toda a acção da sociedade anónima vai no sentido da criação de "resorts" de luxo." "Numa das pontas da outra ilha, da Ilha de Faro, existe já um restaurante para clientes muito exclusivos que explora parte da praia e que assegura o transporte num barco privado", exemplifica. A incoerência dos critérios criados pela "Polis" para determinar quais os alvos das demolições são também um dos alicerces das suspeitas dos habitantes. "Não existe coerência nos critérios", refere o fotógrafo. "Metade do Farol vai abaixo. Hangares será totalmente demolida. Ninguém tocará em Culatra [zona urbana da Ilha da Culatra]. Não se aplica nenhuma regra que seja igual para todos os lugares." John Gallo acrescenta que está prevista uma nova fase de demolições para Setembro de 2016. "A Home With a View" é o nome desta série fotográfica. Outras do mesmo autor, "Falling From the Summit" e "Pilgrims - Chapter One: Walking to Fatima, podem ser vistas no P3. Ana Marques Maia

 

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