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Crónica

A vergonha de falhar

Ninguém pode saber que já fomos cornos, mentirosos, maus amigos, pais egoístas ou, simplesmente, pessoas desesperadas

Texto de Cristina Nobre Soares • 07/07/2016 - 18:18

Cristina Nobre Soares
Cristina Nobre Soares é “copywriter”, trabalha na Claro e escreve no blogue “Em Linha Recta”.

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Hoje é moderno contarmos os nossos falhanços. Mas contar estilo fábula, sempre com uma moral no fim. Quando falamos deles dizemos: eu falhei, mas… E este mas põe-nos do lado certo da vida. Por isso, só falamos daqueles que resultaram em lições formidáveis. Mas o pior são os outros. Aqueles falhanços que nem às paredes confessamos. Que são uma maçada porque vêm apensos à nossa existência pequenina e incomodamente colados à pele.

 

Às vezes, falamos desses falhanços, mas assim de raspão, para não lhes dar grande importância. Então, os outros dizem-nos, meio em tom de consolo, deixa lá, foi um azar. Paciência. Acontece a todos. Mas então, se acontece a todos como é que não sabemos disso? Simples, porque ninguém conta. Ninguém conta que já traiu ou foi traído. Também ninguém fala daquele amigo que, ao passar por nós, fingiu que não nos viu, só para não nos falar. Ou daquela vez em que desejámos não ter tido filhos, só porque nos apetecia dormir uma noite inteira. Ou que fomos uns filhos da mãe com um colega, só para garantir o nosso posto de trabalho. Não, ninguém pode saber que já fomos cornos, mentirosos, maus amigos, pais egoístas ou, simplesmente, pessoas desesperadas.

 

A verdade é que estamos formatados para nunca falharmos. Meteram-nos na cabeça que somos todos especiais e heróis. E isto é uma coisa tão provável como neste momento estar um unicórnio na nossa varanda. Mas ainda assim, acreditamos nesta história da carochinha e vamos varrendo para debaixo do tapete as nossas vergonhas. Porque é disso que se trata: vergonha. Por não sermos as tais criaturas especiais que devíamos ter sido. Por sermos apenas normais, triviais, iguais, medianos, suficientes. Humanos. Maravilhosamente humanos. Ironicamente são estas falhas inconfessadas, mais o calo que elas nos deram, que nos tornam únicos. E mais irónico ainda é pensar que talvez a nossa maior falha seja a de não olharmos de frente para as nossas vergonhas e humilhações. Talvez os verdadeiros heróis sejam aqueles que um dia perderam o medo de falhar. E de falar disso.

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