Fotografia de Mario Anzuoni

Amor

Elas conheceram-se no Tinder e querem ser felizes para sempre

Filipa e Mary conheceram-se através desta aplicação e vivem juntas em Londres. Todos os meses, em Portugal, são feitos milhões de "swipes" no Tinder

Texto de Catarina Corte-Real • 26/04/2016 - 18:44

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Filipa Jorge nunca pensou encontrar o amor no Tinder. Começou a usar a aplicação de encontros românticos por uma brincadeira entre amigas, mas quando a testou pela segunda vez não pôde deixar de reparar em Mary Fang, uma jovem de origem asiática de aspecto exótico. Por outro lado, Mary, natural de Taiwan e com duas décadas de vida passadas na Austrália, usava a app para "conhecer os locais" por onde viajava, geralmente sozinha. "Se tivesse sorte", podia encontrar o amor da sua vida. No Tinder, encontros que acabam em casamento são o unicórnio das aplicações de encontros online — mas também acontecem.

 

O Tinder tem uma particularidade. Tal como na vida real, para encontrar a pessoa certa tem de se ser correspondido. Apenas quando ambos os utilizadores gostam um do outro — ou fazem "match", para usar a linguagem da aplicação — é que podem iniciar uma conversa. Foi o que aconteceu a Filipa e Mary. "Achei a Filipa atraente e quando fui correspondida começamos a conversar. Fui eu que comecei a conversa, ia em breve viajar para Barcelona e por isso convidei a Filipa para sair", contou ao P3 numa conversa via Skype. Filipa aceitou o convite. Ficou intrigada com as conversas que não tinham a superficialidade que geralmente se encontra no Tinder: "Falamos sobre comida, sobre o Porto, sobre o que estava acontecer no Porto, sobre as diferenças culturais. E essa conversa acabou por evoluir para uma vontade em conhecermo-nos."

 

Foi no Palácio de Cristal, local escolhido a dedo por Filipa, que tiveram o primeiro encontro. "Eu pensei: 'Ela vai para Barcelona, não posso perder tempo e levá-la ao [café] Piolho; tenho de a levar ao Palácio de Cristal', recorda. Conversas com o cenário idílico do rio Douro e um posterior jantar num restaurante de sushi criaram entre elas uma ligação especial. Quando se conheceram pela primeira vez, ambas sentiam "borboletas" no estômago. "Depois de falarmos durante horas decidi convidar a Filipa para jantar. Mas não estávamos sozinhas, já tinha combinado jantar com uma amiga que viajava comigo. Foi um bocado estranho, de repente estávamos em modo 'flirt' com a minha amiga ao nosso lado", diz Mary entre risos.

 

Como numa história de amor que só acontece nos filmes, o caminho para o reencontro iria encontrar algumas peripécias, nomeadamente pelo facto de Mary e Filipa não viveram na mesma cidade. Enquanto a australiana morava em Berlim, a portuguesa estava de partida para a capital britânica onde a esperava um novo emprego.

 

"Não nos beijámos, estabelecemos uma ligação através do olhar, e a energia entre nós era muito intensa. A situação era uma loucura. Na altura, vivíamos em países diferentes. Eu nasci em Taiwan e tenho um passaporte australiano, a Filipa é europeia. Tínhamos uma ligação forte, mas como é que isto ia resultar?", interrogava-se Mary.

 

Resultou. Desde que se conheceram, o casal não perdeu o contacto. Mary enviava postais de Barcelona, usavam o Skype, o Viber, Facetime: todas as aplicações eram uma forma de manter o contacto e a chama acesa. Mesmo sem terem assumido qualquer compromisso, não queriam envolver-se com outras pessoas. Um dia, uma mensagem de Mary estabeleceu o compromisso: "Uma rapariga tentou beijar-me, mas, como isso não fazia sentido, fui para casa." E assim passaram-se três meses.

 

Foi quando o visto de Mary estava a terminar que a mudança se precipitou: mudou-se para o Reino Unido, onde podia ficar dois anos com um visto facilmente conseguido. Os amigos acharam-na "louca". Como é que ela poderia mudar de país por causa de alguém que conhecera no Tinder e com quem só saíra uma vez?

 

Filipa sempre afirmou que "nunca seria o tipo de pessoa para namorar à distância", porque valorizava muito o "toque", o "cheiro", o "beijo". Mas a verdade é que "apaixonaram-se perdidamente". Aquilo, sim, "fazia sentido". 

 

26 milhões de "matches" por dia

Segundo números fornecidos ao P3 por Hermione Way, do departamento de comunicação europeu todos os dias, são feitos milhões de "swipes" no Tinder, o gesto com o qual, deslizando o dedo num ecrã de "smartphone", se rejeita ou aceita eventuais candidatos. Com mais de 26 milhões de "matches" diários em todo o mundo, as probabilidades de se encontrar parceiro que se procura parecem ser muito reduzidas. A aplicação é muitas vezes vista como superficial, com um "clímax" feito num encontro meramente carnal. Muitos utilizadores, admitem usar o Tinder para esse propósito, chamando às suas conquistas "tinderellas".

 

Para Filipa e Mary, o desfecho foi diferente. Estão juntas há um ano e meio. Pensam casar-se e, quando o visto de Mary prescrever, ir viver para a Austrália. A plataforma onde se encontraram, diz a portuguesa, não difere muito de outras redes socias como o Facebook ou o Twitter. Ou até mesmo da realidade. "Imagina que estás num sítio público, és abordada por alguém que não conheces e que, no dia seguinte, se encontram. Isso não é tão louco como o Tinder?". É. 

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