Camilo Cevallos Parra

Internacional

O cão que emocionou o Equador e outras histórias das vítimas sem voz do sismo

Voluntários e médicos veterinários recolhem donativos e dão ajuda no terreno. Há um número incalculável de animais mortos, feridos e perdidos nas zonas mais afectadas pelo sismo do Equador — eles são as outras vítimas da tragédia

Texto de Mariana Correia Pinto • 21/04/2016 - 12:55

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O cão estava deitado em cima dos escombros, inamovível. Camilo Cevallos Parra integrava uma visita dedicada à imprensa na manhã de domingo, 17 de Abril, poucas horas depois de um sismo de magnitude 7,8 pontos na escala de Richter ter abalado o Equador. E, de repente, o cão preto, olhos tristes cor de mel, estava ali. Inamovível. Cevallos Parra viu naquela imagem uma declaração de “fidelidade”. Debaixo daqueles escombros e pó estava “aquela que era a casa dos donos no dia anterior”.

 

Na busca de “algo diferente para mostrar”, o fotógrafo de agências viu ali uma história. “Aproximei-me com a câmara e tirei-lhe uma fotografia.” O cão continuou no mesmo sítio. “Disse a mim mesmo: se me deixaste tirar-te uma fotografia vou dar-te a bolacha que tenho no bolso”, recorda. Ele não aceitou. Só quando as máquinas para remover os destroços se aproximaram, “Negro” — assim se chama o cão — fugiu.

 

Já na redacção, Camilo Cevallos Parra partilhou a imagem no Facebook. “Fiquei impressionado com o olhar dele.” As redes sociais também. No momento da escrita deste artigo, mais de 18 mil pessoas tinham partilhado a publicação. O fotógrafo regressou, então, ao local — e por lá reencontrou “Negro” com o dono, Remigio Oña. Debaixo daqueles escombros, confirmou, morava mesmo a casa deles. Estava tudo o que tinham. “Disse a Remigio que o cão era o anjo da guarda dele e que com a ajuda do bicho ia conseguir seguir em frente”, contou ao P3.

 

A fotografia não só está a ajudar a angariar dinheiro para esta família de Quito, capital do Equador, como se transformou na imagem de uma campanha de ajuda a outros animais feridos e perdidos depois do terramoto de 16 de Abril.

 

Esta é apenas uma entre as muitas narrativas que envolvem animais em sofrimento após o sismo do Equador. Nesta quarta-feira, dia 20, um novo terramoto, de magnitude 6,2, voltou a sacudir o país, onde 525 pessoas morreram e 1700 estão desaparecidas. Dos animais não há contabilidade: largas dezenas terão morrido, muitos estão feridos e vagueiam sós pelas ruas. Nas redes sociais, várias pessoas colocam anúncios em busca dos animais perdidos. No terreno, associações, voluntários e médicos veterinários têm juntado energia para recolher alimentos, mantas e medicação.

 

No fim desta semana, a associação Lucky deverá ter três camiões cheios de alimentos para distribuir pelas zonas mais afectadas. Para humanos e animais. Com 300 quilos de ração, medicamentos e dez veterinários e socorristas, a associação Defensa de la Vida Animal também partiu, no início da semana, para a cidade turística de Pedernales, que com Portoviejo, Manta e Sucre são as zonas mais afectadas.

 

Completamente destruído ficou o abrigo da Fundación Esperanza Canina, em Manta. “Só restaram escombros”, partilham na página do Facebook, “alguns cães morreram outros fugiram”. O cenário, descrevem, é devastador: “Sinto uma grande impotência por não poder estar na minha cidade, Manta, levo dois dias sem conseguir comunicar com a minha família. Estou a fazer voluntariado de ajuda animal com outro grupo. Só vejo cadáveres e escombros.”

 

A polícia do Equador mostrou no Twitter o vídeo de um salvamento de um cão na cidade de Manta. Os bichos, garantem, não estão a ser esquecidos: “Também nos preocupamos com os animais. Resgatámos um cão que estava entre as ruínas.”

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