Marko Djurica/Reuters

Crónica

(a)Largar a vida pelos refugiados

Ângela Marques, uma rapariga comum de 31 anos, largou tudo — emprego, amigos, família, casa — e rumou ao desconhecido para ajudar seres humanos de carne e osso que zarparam, atormentados por guerras que não lhes pertencem

Texto de Nelson Nunes • 04/04/2016 - 14:05

Nelson Nunes
Nelson é escritor disfarçado de jornalista armado em investigador

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O facto de haver tanta gente que levanta suspeições sobre os refugiados, apelidando-os de terroristas e alertando que uma bomba se pode trazer a nado, é uma daquelas coisas que me arrepia a espinha a níveis cataclísmicos. Não me espanta, contudo, que haja tanto fascizóide que se melindre com textos como este. Foi, aliás, toda esta celeuma que me fez decidir mostrar uma pontinha do trabalho de uma voluntária num campo de refugiados. Porque o que causa mais medo é a ignorância, e ignorantes há-os para aí debaixo de qualquer calhau.

 

Permitam-me apresentar-vos a Ângela Marques, uma rapariga comum que, aos 31 anos, decidiu largar tudo, amigos, família, emprego, e rumar ao desconhecido para ajudar seres humanos de carne e osso que zarparam, atormentados por guerras que não lhes pertencem. Rumar, em Dezembro passado, a Gevegelija, na Macedónia, “não foi uma opção de primeira maré”. O voluntariado é uma presença constante na vida de Ângela, de há cinco anos a esta parte, “desde apoio curricular a crianças desfavorecidas, distribuição de roupa e alimento a sem-abrigo, apoio a famílias carenciadas". "Não falta quem precise de algum tipo de ajuda e sempre senti que, por pouquinho que seja, é preciso dar."

 

Em finais de Dezembro, Ângela regressou, mas só cá esteve para aí mês e meio. Despediu-se e arranjou forma de ir para outro campo de refugiados, desta feita na Grécia, onde tem estado desde o início de Fevereiro. “A questão da guerra e do socorro a quem dela foge é um tema que sempre me inquietou”, diz, em particular porque “um homem é um homem, onde quer que nasça, e ninguém deve viver entre a morte”.

 

O relato que Ângela faz dos momentos que tem passado entre os refugiados é arrepiante. “O cenário que encontrei aqui, em Idomeni, na Grécia, é diferente do que vi em Gevegelija. Este é um campo de transição, preparado para não mais de 1.500 pessoas que passam, esperam um pouco e seguem para a Macedónia. Depois avançam pela Sérvia, Croácia, Eslovénia, Áustria. Enfim, era parte do caminho e cheguei a ter dias de Fevereiro em que o campo estava vazio. Mas depois veio a fase das greves que estavam a bloquear as passagens e chegaram refugiados aos milhares, exactamente na mesma altura em que as fronteiras começaram a fechar. Chegámos ao ponto em que estamos hoje: dos 15.000 que tivemos a viver aqui, em tendas de verão, no meio da lama, que mais parece um pântano, 3.000 foram recolocados em novos campos. Sobram 12.000 — imaginas o que isto é?” Glup. Claro que não. “Não há nada que chegue, nada. A chuva não dá tréguas, a lama é uma constante, o frio… foda-se, não há um dia em que não tenha frio desde que saio de casa até voltar e tenho vergonha de me queixar debaixo das minhas três camisolas e do casaco forrado, quando ao meu lado há homens descalços numa fila de três horas para chegar a uma sandes. Há crianças ensopadas que correm para te abraçar porque lhes sorriste. Há mulheres a chorar sem adormecer enroladas numa merda de um cobertor de campanha.” No meio de tudo isto, Ângela encontra “uma tristeza profunda”. E revolta, claro.

 

“Haverá alguma coisa que não me revolte em tudo isto?”, pergunta retórica que não precisa de resposta. “A Europa foi posta à prova e falhou. Ontem nasceu um menino numa tenda. Aquele casal já tinha três meninas e finalmente conseguiu o menino, mas nasceu na Europa, dentro de uma tenda no meio de carris do comboio.” A ilustração serve-nos para ver melhor o degredo em que vivem estas almas. “Choca-me a apatia humana que caracteriza grande parte da população, choca-me que, no meu país, de onde emigraram, ilegalmente e em bando, gerações de jovens recrutas para fugir à guerra nas colónias, se diga que os sírios são apátridas sem coragem para lutar pelo seu próprio país, choca-me que o medo seja maior que a empatia para um número absurdo de europeus. Mas o que me revolta, acima de tudo, é a forma pornográfica como os órgãos de soberania enxovalham a lei de asilo que nasceu na Europa para que não mais se vivesse a vergonha do passado.” A agrura está-lhe na voz, e percebe-se bem porquê: “Somos liderados por sociopatas e somos demasiado asnos para fazer a nossa parte, para a cidadania, para a humanidade”.

 

Desengane-se quem julgar que Ângela não tem nada que a prenda a território luso: além das contas para pagar, carro e casa, o normal, ainda há a família e os muitos amigos que ficaram para trás, em nome de uma causa maior. “Ao contrário do que acreditam os acérrimos críticos-nacionalistas-de-algibeira, ser voluntário não é sinónimo de ser anarca-calão-irresponsável. Tenho saudades do meu país (sim, sou patriota daquelas para quem a pátria não é a quantidade de impostos que pago), das minhas pessoas, da minha família, da minha casa, da minha cama, dos meus gatos. Tenho saudades todos os dias das pessoas extraordinárias que estão na minha vida, porque são elas que me mantêm de pé no meio disto.”

 

A mim, que estou sem palavras, dá-me nojo que haja gente incapaz de valorizar o trabalho de milhares de voluntários como Ângela e que essa malta ainda venha para a net destilar ódio sobre uns coitados que mais não fizeram que nascer num lugar onde chovem bombas.

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