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Sara Trigo é tradutora e escritora a tempo inteiro e curiosa nos tempos livres

Excerto

Expliquei-lhe os pontos principais da obra do poeta: a dor de pensar, a tensão sinceridade/fingimento, a nostalgia da infância perdida, a fragmentação do eu e de que forma a própria criação dos heterónimos pode ser vista como uma extensão real da sua poesia.

Patrick Fore/Unsplash

Crónica

Sê todo em cada coisa

(Quase) tudo se resume a desempenhar com paixão a nossa profissão, bem como qualquer tarefa ou projeto a concretizar, uma vez que é essa a única forma de contornar as adversidades, de forma a obter o melhor resultado possível

Texto de Sara Trigo • 23/11/2015 - 12:58

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Um aluno do secundário pediu-me que lhe desse alguns esclarecimentos sobre Fernando Pessoa. Sorri-lhe e sentei-me, preparando-nos para a longa sessão de análise poética que aí vinha.

 

Expliquei-lhe os pontos principais da obra do poeta: a dor de pensar, a tensão sinceridade/fingimento, a nostalgia da infância perdida, a fragmentação do eu e de que forma a própria criação dos heterónimos pode ser vista como uma extensão real da sua poesia. Mostrei-lhe, lendo poemas e contando um pouco da vida de cada um deles, as semelhanças e diferenças entre cada heterónimo, todos eles aprendizes do mesmo mestre – Caeiro.

 

O rapaz olhava para mim entre o estupefacto e o divertido, meio gozão pelo entusiasmo com que falo sobre um esquizofrénico com múltipla personalidade, quando a experiência de aprendizagem dele passava apenas por ouvir e ler os conteúdos programáticos que lhe eram apresentados tal como previstos pelo programa.

 

Lamentei por ele não ter tido a mesma sorte que eu quando, no 12º ano, depois de duas raspadinhas mal jogadas, me ter calhado em sorte uma professora apaixonada pela língua e literatura portuguesas e, acima de tudo, por ensiná-las.

 

É verdade que, de uma forma geral, a situação económica atual não é favorável, que o descontentamento é generalizado e a incerteza constante. No que aos professores diz, mais particularmente, respeito, o tempo dedicado ao ensino (ao qual acresce o horário de execução de tarefas diversas na escola) tem aumentado e a educação que os alunos levam de casa é, em vários casos, desleixada, sendo por vezes esse papel erradamente atribuído ao sistema de ensino, o que pode ser um fator desmotivante e contraproducente.

 

Apesar de tudo, a responsabilidade de interessar ou cativar os alunos continua a ser de quem se apresenta diante deles, disposto a transmitir-lhes conhecimentos. Até porque os professores de hoje têm a sorte de poder usufruir de um aliado tão poderoso como a tecnologia, que disponibiliza meios diversificados de apresentação da matéria, a qual pode ser complementada com muita outra informação acessível tão facilmente.

 

(Quase) tudo se resume a desempenhar com paixão a nossa profissão, bem como qualquer tarefa ou projeto a concretizar, uma vez que é essa a única forma de contornar as adversidades, de forma a obter o melhor resultado possível. Especialmente porque conjunturas como a atual são, provavelmente, as que mais exigem a nossa capacidade estoica de distinguir, entre tantas coisas aborrecidas e desanimadoras, aquelas graças às quais temos a sorte de sair todos os dias da cama com um objetivo útil a cumprir.

 

Sobretudo para podermos seguir um pouco o exemplo do heterónimo Ricardo Reis a fim de deixarmos para trás um legado que nos sobreviva, em vez de um acumulado de deveres cumpridos apenas porque tem que ser:

 

Sê todo em cada coisa

Põe quanto és

No mínimo que fazes.

 

Tal como o fez a professora que há dez anos atrás me apaixonou pela obra de Fernando Pessoa.

Eu acho que
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