Emigração

Portugueses são discriminados na Suíça como eram nos anos 80

Psicóloga Ana Barbeiro comparou a sua amostra com o questionário europeu EU-MIDIS e concluiu que, “no primeiro ano, a percentagem dos portugueses discriminados supera a média das minorias mais discriminadas na UE”, como é o caso dos ciganos

Texto de Mariana Correia Pinto • 17/06/2015 - 19:09

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A sensação de que são preteridos profissionalmente em relação aos suíços e a outros estrangeiros, baixos salários, despedimentos sem justificação, dificuldade na realização de contratos de alojamento, insultos. A lista é extensa e não varia significativamente quando se compara a década de 80 com os anos mais recentes, já depois do acordo de livre circulação na União Europeia: no primeiro ano como imigrantes na Suíça, a maioria dos portugueses (56%) experienciou algum tipo de discriminação ou de injustiça. A conclusão é da investigadora Ana Barbeiro e baseia-se em 273 questionários e 22 entrevistas aprofundadas, recolhidos em 2010 e 2013, para o doutoramento que a psicóloga vai concluir ainda neste ano na Universidade de Lausanne, na Suíça.

 

Se o tipo de discriminação relatada pelos entrevistados não foi propriamente “surpreendente”, o mesmo não se pode dizer em relação à permanência do nível de injustiça consoante o ano de chegada à Suíça. “De alguma forma surpreendeu-me porque as condições de emigração antes do Espaço Schengen eram bastante diferentes das actuais”, relatou Ana Barbeiro ao P3, numa entrevista telefónica. Até 2002, a emigração para a Suíça era sazonal e só ao fim de quatro contratos de nove meses é que os imigrantes obtinham um visto definitivo. Isto, exemplifica a investigadora, dificultava o processo de “reunificação familiar” e colocava os portugueses em “situações complicadas”. Agora, o processo está simplificado. Mas os portugueses deparam-se com outros inimigos, como os preços muito elevados de alojamento (e a necessidade de ter contrato de trabalho para ter contrato de alojamento) ou o trabalho temporário. “Neste momento, muita gente encontra trabalho através de agências de colocação. Muitas vezes, são chamadas apenas quando são necessárias e o salário é, por isso, muito variável”.

 

Os sentimentos de vulnerabilidade e discriminação podem também ser analisados do ponto de vista das “expectativas dos que chegaram depois do acordo”: ao emigrar para um país “que faz parte do Espaço Schengen tem-se uma ideia de uma Europa onde não há fronteiras”. “Mas a Suíça não faz parte da União Europeia (UE). E os acordos estão limitados a determinados aspectos das relações Suíça-UE”, sublinha. Além disso, os acordos estão em “constante discussão” e a ideia de um país ameaçado pelos emigrantes “pode também contribuir para essa vulnerabilidade, real e sentida, de se ser estrangeiro”. “Assim mo disseram alguns entrevistados — havendo, porém, portugueses na Suíça que concordam com uma limitação da entrada de migrantes.”

 

Comparando os resultados obtidos com o questionário europeu EU-MIDIS, Ana Barbeiro concluiu que, “no primeiro ano, a percentagem dos portugueses discriminados supera a média das minorias mais discriminadas na UE”, como os “Roma [ciganos], com 47%”.

 

Apesar das adversidades relatadas, o que leva, afinal, os portugueses a permanecerem na Suíça? “A crença de que as coisas podem mudar e a crença no valor do trabalho. As pessoas têm um objectivo, não aguentam as coisas passivamente”, acredita Ana Barbeiro, também ela emigrante desde 2008. O questionário da psicóloga, licenciada pela Universidade do Porto e mestre pela Universidade do Minho, procurava perceber a sensibilidade dos portugueses não só no primeiro ano em que tinham chegado à Suíça, mas também no último (para aqueles que estavam no país há dois ou mais anos). Neste caso, o número baixa significativamente: 23,4% dizem ter experienciado uma situação de discriminação ou injustiça, o que “indica um integração” quando comparado com os 56% iniciais.

 

Durante os questionários, a investigadora cruzou-se com todo o género de casos. Dois amigos que compraram viagens de avião numa companhia “low cost” para passar três semanas em casa de amigos à procura de emprego — e um deles já só regressou a Portugal para ir buscar malas. Ou um senhor que, no anos 80, foi para a Suíça (de comboio) bater à porta de um desconhecido. “Tinha acabado de se casar, tinha um filho. E não arranjava emprego. Um dia, pediu boleia a uma senhora que lhe disse que que tinha um irmão na Suíça e lhe deu a morada dele. O senhor apanhou um comboio e foi ter com esse irmão. Teve muita dificuldade para se legalizar. Mas continua na Suíça até hoje.”

 

Ana Barbeiro não gosta, por isso, de falar de “uma comunidade portuguesa na Suíça” — “é uma coisa absolutamente abstracta”. “Tenho muita resistência a discursos que dizem que os emigrantes são isto ou aquilo, porque é naturalizar uma categoria que não existe. Os emigrantes não são nem coitadinhos, nem vitimas nem heróis. São pessoas como todas as outras.”

 

De acordo com o Observatório da Emigração, em 2013 havia 253 mil pessoas com nacionalidade portuguesa a viverem na Suíça, o que significava 13% do total de estrangeiros no país. Só no ano de 2013, 20 mil portugueses emigraram para aquele país. 

 

A importância da tecnologia

Parte dos questionários utilizados pela investigadora para a tese de doutoramento — “Violências institucionais e percurso de vida. Vivências, representações e atitudes dos portugueses imigrantes na Suíça” — foi feita através da utilização de tecnologias e redes sociais. Numa pesquisa no Google, a autora encontrou 112 sites e grupos de Facebook de portugueses na Suíça e publicou o questionário em 18 grupos e 23 páginas. “Nunca tinha utilizado o Facebook como ferramenta de trabalho. Não serve para todo o tipo de investigação, mas neste caso foi útil”, explicou.

 

Ana Barbeiro cruzou-se com vários tipos de páginas (desde páginas de ranchos folclóricos até grupos desportivos) e percebeu que o Facebook funciona como uma “comunidade virtual” para muitos: “Publica-se muita coisa que sai na comunicação social sobre os emigrantes e muita informação relacionada com emprego. E funciona como ajuda na troca de informação.” As vantagens são “evidentes”. As desvantagens? “Passam sobretudo pela inexactidão de alguma informação partilhada”, responde a investigadora.

 

O doutoramento deverá estar concluído até ao final do ano, altura em que Ana Barbeiro vai apresentar novas conclusões: “Interessa-me saber como é que as pessoas lidam com estas experiências [de discriminação], como é que isso tem impacto em termos da sua identidade, como é que se vão adaptando, quais são as estratégias práticas e psicológicas que usam para fazer face a este tipo de situação e qual a implicação destas estratégias no julgamento de justiça que fazem em relação aos outros.”

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