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João Teixeira Lopes é sociólogo e docente na Universidade do Porto

João Teixeira Lopes é sociólogo e docente na Universidade do Porto

Excerto

"Boa parte dos jovens portugueses é favorável à legalização do aborto, à união de facto, tem práticas sexuais pré-conjugais, tolera a homossexualidade e a eutanásia, mas declara-se, simultaneamente, religioso. Frequentemente reza “à sua maneira”, pelos seus modos e palavras."

Reuters

Crónica

O sagrado quando menos se espera

O sagrado irrompe quando menos se espera: nas manifestações de indignados, onde é notória a presença da efervescência colectiva do “estar junto e em sintonia por algo superior”

Texto de João Teixeira Lopes • 13/12/2011 - 19:23

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O vocabulário do imaginário pagão entrou com furor na sociologia e noutras ciências sociais. Fala-se, por exemplo, a respeito dos estilos de vida e das “cenas” (aqui a linguagem cinéfila vai fazendo também o seu caminho) dos jovens urbanos, de um efervescente “neo-tribalismo”. Tribos seriam, assim, uma espécie de enclaves de sociabilidade em que os jovens organizam os seus territórios nos mosaicos das grandes urbes com uma forte carga imagética, performativa e simbólica. Nada de novo, se pensarmos que o homem e a mulher são os animais que se distinguem dos demais por comunicarem através de signos que (re)interpretam a vida, dando-lhe sentido.

 

Mas o que parece estimular certos sociólogos é a suposta tendência para a intensificação desse trabalho simbólico de identificação face a um conjunto de referências e de distinção face às demais. Como na moda, aliás, em que o desejo de se integrar no colectivo coexiste com uma forte determinação na demarcação grupal e individual (“ser-se único”; “ser-se diferente”, ao mesmo tempo que se “pertence à sociedade” dos normais). Não se imagine, contudo, que me refiro a formas estruturadas das vivências quotidianas. Na verdade, estas “tribos” são amiúde efémeras e voláteis, fazendo-se e desfazendo-se como um novelo. Alguns encontram nesta procura de encontro e de reunião uma religiosidade difusa, transmitida nos mais ínfimos gestos e posturas. Uma vez gasta a “grande religião” suceder-se-iam envolvimentos de comunhão esporádica embora intensa. Nesses rituais anódinos associa-se a aprendizagem ao afecto de estar entre iguais (apesar de persistirem sempre hierarquias e lideranças), como nos mostra o texto seminal de Howard Becker sobre os fumadores de marijuana e como se tornar num deles.

 

Insinuo eu que as práticas religiosas tradicionais foram substituídas pelo "religare que existe em fumar um charro? Não vou tão longe, mas arriscar-me-ia a seguir João Ferreira de Almeida (um dos fundadores da sociologia portuguesa) quando fala na “protestantização do catolicismo”, patente em formas cada mais individualizadas de viver o sentimento religioso, desligadas de cânones, liturgias, hierarquias e dogmas. Boa parte dos jovens portugueses é favorável à legalização do aborto, à união de facto, tem práticas sexuais pré-conjugais, tolera a homossexualidade e a eutanásia, mas declara-se, simultaneamente, religioso. Frequentemente reza “à sua maneira”, pelos seus modos e palavras. Comunica então com o sagrado de formas inusitadas e pós-tradicionais. Hoje creio que é possível ir ainda mais longe, entrando na babel das micro-crenças, atomizadas e diversas, quase feitas à medida de cada um.

 

Sem esquecer que o sagrado (ou o religioso difuso) irrompem quando menos se espera: nas manifestações de indignados e acampadas, por exemplo, onde é notória a presença da efervescência colectiva do “estar junto e em sintonia por algo superior”, ainda que não se saiba muito bem o quê, numa comunidade efémera muito mais intralocutora do que interlocutora. Ou então estamos já, quem sabe, na transição para um politeísmo de novo tipo. Deus morreu, vivam os deuses: pequenos, quotidianos, quase instantâneos e frágeis. Humanos.

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