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Sandra Guerreiro Dias é historiadora da cultura e doutoranda no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

O excerto

Eu nasci e cresci em Beja. Acaso alguém se lembra que nas décadas de 80 e 90, o baixo alentejo era região com a maior taxa de suicídio do país? Basta ouvir uma música dos Anonimato ou ler umas passagens do “Adeus Princesa” de Clara Pinto Correia para ficar com uma ideia do que é isso da solidão ardente, do isolamento rebuscado ou da miséria esquálida. Uma coisa muito alentejana entre o abafado e a lentidão sôfrega, a chamada “abafidão”, que só quem cá vive sabe o que é.

Nuno Dias

Crónica

Alentejanos: somos exóticos mas pouco

Mas não é por sermos pobres que me chateia. É por nos fazerem pobres e exóticos ao mesmo tempo.

Texto de Sandra Guerreiro Dias • 11/05/2015 - 18:17

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Há idílicas tentações quando se fala do Alentejo. Uma espécie de êxtase ou histerismo que pouco tem que ver com o desterro político-social a que a região foi desde sempre votada. Hoje, mais do que nunca, o Alentejo é olhado como um exílio paradisíaco, de bucólicas paisagens e santo sossego. Uma esquizofrénica combinação entre qualidade de vida, muito desemprego e um gravíssimo problema demográfico. Mas não é por sermos pobres que me chateia. É por nos fazerem pobres e exóticos ao mesmo tempo.

 

Alguns esclarecimentos. Começo por um assunto que, recentemente, catapultou o seu nome para as luzes da ribalta: o cante alentejano. Enfim, o folclore habitual. Acho muito bem que a tradição esteja viva e se recomende. Que se aprenda nas escolas, que se façam encontros, debates, concertos. Acima de tudo, que se cante. Que chegue aos palcos da UNESCO? Está de parabéns, claro, e felicito sobretudo a comissão que preparou esta candidatura e a levou a eito contra tudo e contra todos. Mas começámos logo da pior maneira pela forma como o assunto foi noticiado: imagens de sonho, mulheres alentejanas do século passado que não sabiam ler uma letra do tamanho dum comboio, a exploração predatória de um imaginário que muito pouco tem que ver com a realidade? Porventura alguém referiu que este canto, na sua versão contemporânea, nasce de uma tradição dos que trabalharam a terra de sol a sol e comiam uma côdea de pão seco no entremeio? Sim, qualquer coisa como o "blues". É claro que isso não lhe tira em nada o seu encanto, mas já agora convém chamar as coisas pelos nomes.

 

Depois, com o Património Cultural Imaterial da Humanidade vem o resto. A necessidade de criar infraestruturas capazes de dar resposta aos milhares de turistas que aí hão-de vir em manada. Até aqui tudo bem, não fosse isso de repente virar moda e transformar o Alentejo num oásis empreendedor em que vale tudo menos arrancar olhos. “With great power comes great responsability”??? Agora a sério…

 

Sinto-me um pouco espoliada, promovidos que fomos a vedetas. Se há coisa que o Alentejo nunca gostou foi das luzes da ribalta. Aqui aprendemos a custo e à força o significado da discrição e isolamento meditativo. Alguma coisa tem que se fazer dele. Só para não falar que tenho muitos problemas com a forma como a arte, a política, a economia, o que for, usa e abusa da miséria para a seguir se descartar dela. Eu nasci e cresci em Beja. Acaso alguém se lembra que nas décadas de 80 e 90, o baixo alentejo era a região com a maior taxa de suicídio do país? Basta ouvir uma música dos Anonimato ou ler umas passagens do “Adeus Princesa” de Clara Pinto Correia para ficar com uma ideia do que é isso da solidão ardente, do isolamento rebuscado ou da miséria esquálida. Uma coisa muito alentejana entre o abafado e a lentidão sôfrega, a chamada “abafidão”, que só quem cá vive sabe o que é.

 

É claro que a região precisa de crescer, de investimento e economia. Mas sobretudo de um desenvolvimento sustentado entre a formação, o emprego e essa tal qualidade de vida. E não vou falar do aeroporto, da emigração jovem ou da reforma agrária. Digo só que já é tempo de nos deixarem em paz e nos deixarem ser só aquilo que somos.

Eu acho que
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