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Dia da Mãe

Mães bloggers porque “os bebés não vêm com livro de instruções”

Tratam a maternidade na primeira pessoa e tocam em assuntos que ainda são tabus. Os blogues sobre a aventura de ter um filho ganham cada vez mais destaque na internet em Portugal

Texto de Alice Barcellos • 01/05/2015 - 16:54

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Antes de ser mãe, Ana Rodrigues não tinha uma conta no Facebook e nem era utilizadora activa de blogues. Quando teve a sua primeira filha, Ana criou um blogue para escrever sobre um tema ainda pouco falado, mas que atinge muitas mulheres: o babyblues.

 

“No pós-parto, vivi uma situação complexa, o babyblues, que nunca tinha ouvido falar. Quatro semanas depois de ter passado por isto, decidi criar o blogue”, explica Ana. “Resolvi partilhar esta informação, porque ninguém falou comigo sobre isso e gostava que alguém tivesse falado”, afirma a autora do blogue “Mulher, Mãe e Filha”.

 

Quase sempre, o cenário que envolve as futuras mamãs é pintado em tons suaves de cor-de-rosa. “Vai ser tudo ótimo e vai ser um amor incondicional, diziam-me, mas, no meu caso, o bebé nasceu e só me apetecia chorar todos os dias”, lembra Ana, que passou por uma condição de tristeza, irritabilidade e exaustão (o chamado babyblues), experienciada por mais de metade das mulheres depois de serem mães, que se pode prolongar e se transformar numa depressão pós-parto.

 

A enfermeira, de 26 anos, reconhece que existem temas “pouco falados” durante a gravidez. “Há montes de problemas para os quais não nos sentimos preparadas e disto ninguém nos fala”, confessa. A parca informação sobre saúde mental perinatal, a inexistência de uma rede de apoio e o despreparo dos profissionais de saúde para estes temas motivaram Ana a investir o seu tempo neste blogue, onde, pelo meio, relata episódios da sua vida enquanto mãe.

 

A falta de informação sobre o pós-parto foi também sentida por Diana Ribeiro. “Senti-me, por vezes, um pouco deslocada por ver outras mães e outros blogues com os quais não me identificava, porque era tudo muito cor-de-rosa ou muito fashion”, explica.

 

Quando começou a escrever no “Oh Happy Daisy” , Diana Ribeiro, que já tinha experiência com blogues, fê-lo com o objectivo de auxiliar a memória – queria guardar os pequenos grandes momentos do crescimento da primeira filha. Mas, quando começou a receber o feedback “de outras mães e de pessoas que nem tinham filhos”, percebeu que o blogue havia conquistado outra dimensão. “Começou a ser muito mais estimulante escrever sobre este mundo novo e senti que poderia ajudar as pessoas com informações úteis”, sublinha.

 

Estes relatos sobre a maternidade, que vão desde doenças, alimentação e entrada na creche, até reflexões sobre as diferenças entre pai e mãe, instinto materno ou construção da identidade, são “uma forma de identificação e ajudam a lidar com certas situações”. Até porque, “os bebés não vêm com livro de instruções”, diz Ana Rodrigues.

 

“É uma experiência pessoal e única, mas é tão igual para toda a gente. Isso ajuda muito, sobretudo, naqueles primeiros meses em que estás com grandes problemas sobre se a bebé tomou ou não aquele biberão até o fim”, conta Minês Castanheira, autora do “Casa Escrita”. Ela e o companheiro decidiram criar o blogue para “pensar sobre esta experiência da paternidade e da maternidade”. “Para nos ajudar a olhar para nós próprios, uma vez que, nos primeiros meses, a tendência é fechar-nos numa bolha quase intransponível”, realça Miguel Coutinho.

 

Desde que começaram a trocar uma espécie de correspondência online e aberta sobre “as cenas quotidianas da vida privada”, Minês e Miguel têm tido “boas surpresas e reações” à honestidade com que tratam certos temas. “Não é aquele lado estilizado, muito bonito e muito fofinho da maternidade: ‘sim é difícil, mas é tão bom’. Às vezes não é assim, é só complicado. E há muitas pessoas que se reconhecem nisso”, considera Minês.

 

Criar uma “rede de afectos”

A identificação e a partilha de experiências são parte desta rede virtual sobre maternidade e paternidade. “O feedback é delicioso”, admite Luana Freire, autora do Little M. Desde que criou o blogue em 2012, quando a sua filha tinha um ano e meio, viu o número de pessoas que a seguiam crescer e hoje consegue “cativar uma rede de leitoras fiéis, queridas e amigas”. “São pessoas que se preocupam connosco, que escrevem a perguntar por nós. Tiram dúvidas, pedem dicas, trocam sentimentos e enviam fotos dos filhos”, descreve a bloguer.

 

O mesmo aconteceu com Romana Naruna. Com grande parte da família a viver no Brasil, decidiu criar o blogue “É a mamãe, sim” para partilhar os momentos da sua primeira gravidez, mas, rapidamente, alcançou com os seus textos pessoas que nem ela esperava. “Financeiramente o blogue nunca me deu retorno, mas a rede de afectos que se formou em torno dele foi muito interessante”, nota Romana, que começou a receber pedidos de ajuda e até confidências: “amigas de infância com quem já nem tinha contacto, procuraram-me para contar que estavam grávidas”.

 

Um dos comentários que recebeu na sequência de um texto sobre a possibilidade de parto induzido foi o de Diana Ribeiro. Hoje, as duas jornalistas são amigas e não passam um dia sem falar. “É uma maternidade partilhada”, conta Diana, que encontrou “por acaso” o texto que, na altura, foi uma grande ajuda, já que também ela poderia passar por um parto induzido, o que acabou por não acontecer. “Ao ler o post dela, percebi que havia esperança”, lembra Diana.

 

Os relatos na primeira pessoa são vistos pelas bloguers como uma mais-valia. “Dão uma dose de realidade e mostram que as mães são ‘gente como a gente’”, assegura Romana, reconhecendo que ainda existem “poucos blogues que se propõem a dar esta visão real da maternidade”.

 

Não é por acaso que os posts com mais comentários e partilhas são aqueles que tocam em temas mais sensíveis ou menos bons, “mas que fazem parte”, defende Diana Ribeiro. “Tenho uma maior responsabilidade por aquilo que estou a escrever, já que isso pode influenciar as pessoas que estão a ler. Mas tento sempre transparecer a maternidade real e que o meu testemunho faça com que as outras mães se sintam mais normais”, conclui.

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