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Tiago Matos Silva

Tiago Matos Silva é antropólogo, doutorando e investigador

O excerto

"Esgota-se a possibilidade de adiamento, do fingimento da fuga: os corpos juntam-se num resfolegar só, juntos e agarrados pelo prazer partilhado, orgulhoso, só deles solitários e luminosos. Deslizam pela cama, voltas e reviravoltas, deixam marcas húmidas na roupa agarrada, repuxada, cabeças penduradas da beira, almofadas expulsas para o chão pelo ritmo uníssono, carnudo, de olhos nos olhos, de boca nas bocas todas do corpo. "

Jason Lee/Reuters

Crónica

Sangue quente

Os corpos movem-se debaixo da roupa lenta, o quente sobe com o abraço, a pouca roupa abandonada peça a peça, perdida algures na cama

Texto de Tiago Matos Silva • 03/10/2014 - 15:29

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Sem um pio os olhos descolam-se, a boca seca fecha-se no enterro da almofada, por entre os lençóis os dedos encontram as costas, os ossinhos salientes da coluna, a curva hemisférica e dividida do rabo. O outro par entreolha por entre o desgrenho da manhã, os lábios sorriem e exalam um bafo quente e sonoro, o nariz aninha-se em ombro alheio, as papilas activam-se ao sal da pele, as pupilas ao lusco-fusco.

 

Os corpos movem-se debaixo da roupa lenta, o quente sobe com o abraço, a pouca roupa abandonada peça a peça, perdida algures na cama. Os dentes roçam a carne, a pele engalinha-se, o pelo eriça-se, os mamilos endurecem e espetam-se no outro; um risinho abafado, quase infantil, sucede a mordidela fingida. As mãos exploram os corpos habituais, tocam onde sabem, primem onde podem, agarram onde têm, a respiração engrossa e cadencia-se. As inspirações e expirações viram um metrónomo, as línguas correm rápidas a boca, a cara, as pálpebras, o lóbulo, aquela faixa nua entre a orelha e o risco do cabelo, pescoço, axila, colo do peito, mais abaixo, mais abaixo, aí, aí, ai, menos, mais.

 

Cada um tenta uma coisa nova no corpo do outro, ambos recorrem a truques velhos de milénios, a negociação das idas e vindas é feita sem palavras, quase sem olhares, numa suavidade de reações epidérmicas e silenciares de respiração. As unhas riscam a pele, os dedos tocam humidades, as bocas dão-se molhadas, esfomeadas; ambos adiam o enlace definitivo só mais um bocadinho, só por desporto, só por maldade, só para prolongar o contágio, a mistura, o calor.

 

A temperatura começa a gemer a água dos corpos, alguém afasta lençol e cobertor num repente, pés e pernas organizam-se em passos sem necessidade de ensaio. Esgota-se a possibilidade de adiamento, do fingimento da fuga: os corpos juntam-se num resfolegar só, juntos e agarrados pelo prazer partilhado, orgulhoso, só deles solitários e luminosos. Deslizam pela cama, voltas e reviravoltas, deixam marcas húmidas na roupa agarrada, repuxada, cabeças penduradas da beira, almofadas expulsas para o chão pelo ritmo uníssono, carnudo, de olhos nos olhos, de boca nas bocas todas do corpo. A partilha roça a violência, ambos abusam só para se surpreenderem, uma mão agarra a trave da cama, outra apoia-se na parede, algo tomba da mesa de cabeceira.

 

O embalo algoz insiste até à partícula, até ao milésimo, até à falhada tentativa de pausa imediatamente anterior à pequena morte. Mas é fatal, um escorrega e arrasta o outro: as cores explodem, por um segundo tudo faz sentido, o mundo é plano e licoroso e ambos vêem claro e tudo e o todo; por um segundo toda a música vem de dentro, toda a fome e frio e medo e luto desaparecem, toda a espécie vive saciada, leões e cordeiros juntos e beatíficos.

 

Adiam o descolar dos corpos só mais um momento, enquanto reaprendem a respirar cada um sua respiração, enquanto no canto, a gata entediada repega a sonolência mole, enquanto lá fora a vida recomeça a escorrer.

Eu acho que
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