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Nelson Nunes

Nelson é escritor disfarçado de jornalista armado em investigador

O excerto

Nos dias que fluem, a tatuagem já não é um signo exclusivo que representa uma determinada subcultura. Há coisa de vinte ou trinta anos, eram os punks, os metaleiros e outros que tais; ou, como adoravam dizer os nossos avós, as tatuagens eram para “os arruaceiros e os drogados”. Hoje, é uma escolha pessoal, independentemente da profissão, do credo, das vontades, dos amores ou dos humores.

♥ Electric Barbarella/ Flickr

Crónica

Devo fazer uma tatuagem?

As tatuagens passaram a ser adornos de uma estética autobiográfica. Uma gravura para sempre marcada no corpo. Uma gravura que há-de morrer com a vida

Texto de Nelson Nunes • 08/09/2014 - 18:06

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A adolescência é pródiga em reinados de preconceitos e ideias feitas. Por isso, antes de começar, uma confissão: nos meus anos de juventude, as tatuagens tinham em mim um estranho efeito de repulsa. Quando via alguém com uma tatuagem, vigiava-o com um misto de temor e descrença naquele corpo profanado. Hoje, olho para esse adolescente de há dez ou quinze anos e tenho vontade de o esbofetear.

 

Hoje, aliás, se algum tatuado me apanhar a contemplá-lo, será apenas pelo fascínio e pela atenção redobrada que invisto nos desenhos que traz espalhados nos ombros, nos braços, nas costas, nas pernas, nos pés. Espantam-me aquelas obras de arte ambulantes, aqueles museus de memórias e de estórias que caminham e se deixam partilhar com desconhecidos.

 

Nos dias que fluem, a tatuagem já não é um signo exclusivo que representa uma determinada subcultura. Há coisa de vinte ou trinta anos, eram os punks, os metaleiros e outros que tais; ou, como adoravam dizer os nossos avós, as tatuagens eram para “os arruaceiros e os drogados”. Hoje, é uma escolha pessoal, independentemente da profissão, do credo, das vontades, dos amores ou dos humores. As tatuagens passaram a ser adornos de uma estética autobiográfica. Uma gravura para sempre marcada no corpo. Uma gravura que há-de morrer com a vida. Não: uma gravura que há-de sobreviver, ainda que por pouco tempo, à morte.

 

Maravilho-me cada vez mais com a simbologia que uma tatuagem pode ter na vida de um ser humano. É um chamar à terra, um apelo às origens, uma memória para uso futuro. Sobre uma pessoa, um evento, uma ideia. Os tatuados têm-me vindo a ganhar uma certa admiração quase heróica, embora eu não saiba explicar ao certo porquê. Mas olho-os, já com pouco disfarce, e digo a mim mesmo que gostava de ter a coragem de pintalgar o corpo daquela forma.

 

E os medos? Pois, claro que há sempre os medos antes de sentir uma agulha ser cravada na carne. Logo a começar pela dor, essa malvada. E se te arrependes?, perguntam-me. É uma decisão que deve demorar o seu tempo a tomar e a certeza deve ser praticamente total e inabalável. Depois há o receio constante sobre o poder ter dificuldades na obtenção de um qualquer emprego, mas uma vez que não planeio propriamente desenhar um pentagrama na testa, acredito que os preconceitos face às tatuagens se começam a esbater o suficiente para as exibirmos com mais orgulho que embaraço.

 

Portanto, desde há vários meses para cá que a questão se me coloca: devo fazer uma tatuagem? Devo marcar uma imagem no meu corpo, um signo cujo significado só a mim diz respeito, só a mim motiva e só a mim recorda do poder que trago no interior do meu próprio corpo? Hoje, meus caros, a decisão está praticamente tomada. É uma dúvida obsoleta que recebeu, aos poucos, uma resposta positiva.

 

Dizem-me que devo preparar-me para me habituar a fazer tatuagens. A primeira será sempre precedida pela segunda e pela terceira e pela quarta e pela quinta. Será viciante, garantem-me. E nunca deixes em ti um número par de tatuagens, alertam-me. Veremos se os clichés se fazem cumprir. Ah, querem saber qual será a gravação? Um dia destes pode ser que me vejam o antebraço direito.

Eu acho que
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