Orienta-te Redes Sociais

Nelson é escritor disfarçado de jornalista armado em investigador

O excerto

Apartando as memórias do celebérrimo “sketch” que oiço vezes e vezes sem conta de cada vez que digo que fui escuteiro (“antes andasses metido na droga”, gracejam de forma muito pouco original os armados em comediantes de bolso), não tenho o mínimo incómodo em asseverar que o escutismo é uma das melhores escolas que a vida me deu.

Stringer/Reuters

Crónica

Os escuteiros não são piores que a droga

Aproveito, desde já, para esclarecer: os escuteiros não são, no geral, melhores pessoas que as outras. Mas têm o potencial individual para o ser

Texto de Nelson Nunes • 02/07/2014 - 16:21

Distribuir

Imprimir

//

A A

Os eventos mais fulcrais do quotidiano são os acasos. Mais do que tudo, são eles que montam a vida e, pelo meio das coincidências, desviamo-nos e vamo-nos adaptando. Há poucos dias, no meio dos aborrecimentos e do marasmo das rotinas, atravessou-se-me à frente um pedaço da minha própria história: vi gente a quem não olhava nos olhos há perto de uma década. E gostei.

 

Para muitos, isto seria uma confidência; para mim é só uma revelação: fui escuteiro durante dez anos. Durante uns gloriosos dez anos. Celebrei amizades de fazer inveja a muita malta, provoquei eventos que só morrerão com o meu próprio cérebro, fiz nascer ensinamentos que, se tudo correr bem, serei capaz de transmitir a outros.

 

Apartando as memórias do celebérrimo “sketch” que oiço vezes e vezes sem conta de cada vez que digo que fui escuteiro (“antes andasses metido na droga”, gracejam de forma muito pouco original os armados em comediantes de bolso), não tenho o mínimo incómodo em asseverar que o escutismo é uma das melhores escolas que a vida me deu. Soa a cliché, eu sei, mas é a mais crua das verdades. Por isso mesmo, tenho um conselho para quem o quiser agarrar: se tiverem filhos, ou estiverem a pensar em tê-los, não tenham o mínimo receio de os ver de lenço debruado ao peito. Eu explico porquê.

 

Aproveito, desde já, para esclarecer: os escuteiros não são, no geral, melhores pessoas que as outras. Mas têm o potencial individual para o ser. Ser escuteiro não é, naturalmente, vestir uma farda, promover farras dentro de florestas e caminhar com um destino pouco provido de sentido. Quero dizer, também é - mas não é só. É, acima de tudo, conhecer melhor o bicho humano e a sua presença no meio que o envolve. É uma comunhão com outros colocando o eu em perspectiva.

 

Quem tenha sido escuteiro sabe ser um melhor profissional, especialmente se tiver de trabalhar em sinergia – conhece bem o que deve ser um verdadeiro espírito de equipa. Sabe ouvir melhor os apelos que vêm das árvores, estando sensibilizado a todos os níveis para a importância da preservação do ambiente. Conhece melhor a fraternidade de que os humanos são capazes. Conhece também – e não o nego - as dinâmicas homem-mulher. Sabe isto e muito mais. Tão mais.

 

Mesmo que tenham tido, como eu tive, (ou ainda tenham) vergonha de andar com umas coisitas ridículas penduradas nas meias, a que se convencionou dar o nome de jarreteiras, não deixem de aprovar o movimento. Vale a pena, mesmo que a vida nos empurre depois para outros lugares fisicamente longe do escutismo, como me aconteceu a mim. Mas a sério, vale mesmo a pena. Palavra de escuteiro.

 

Resta-me deixar uma palavra de apreço a cada um dos milhares de pessoas que tornam o escutismo numa realidade em Portugal, em especial aos meus queridos ex-colegas dos 625 de Rio de Mouro, que cumpriu há dias 34 anos de existência. Boa caça!

Eu acho que
Videoclipe.pt

Audio

Laura quer que as pessoas entrem no atelier dos artistas "com um clique"

Media

Inspirada no Twitter e criada por um programador de 24 anos, a Mastodon é descentralizada e não tem publicidade. Não é a primeira plataforma do género

Olhar para o espelho e aceitar a...

Fotografia // A meio das escadas, Julieta observa as suas próteses. Uma doença rara chamada “...