Orienta-te Redes Sociais
João Bonifácio

João Bonifácio nasceu em 1975. Desde então não achou graça a muita coisa

O excerto

"Por vezes viro-me para o imbecil do meu filho e berro-lhe: “Porque é que não produzes desenhos de elevado potencial artístico, palerma de um raio?” E de volta ele dá-me um coice: andar à pancada, perseguir pombas (por mais que eu lhe diga que nunca vai apanhar alguma), isto são as brincadeiras que ele aprecia."

Ricardo Moraes/ Reuters

Crónica

O bronco do meu filho

O meu puto é um bocado bronco – e cruel: adora aquela cena num dos Indiana Jones em que o dito, perante um humano de um país em desenvolvimento que o ameaça com uma espada, saca da pistola e, sem mais, dispara

Texto de João Bonifácio • 09/05/2014 - 18:15

Distribuir

Imprimir

//

A A

As crias dos meus amigos são seres especiais, de sensibilidade apurada, que libertam ditos de encantar: “A Lua é o olho do céu”, “As folhas caem por serem amigas do chão”. Num enlevo babado, os pais postam estas saídas no Facebook e eu faço “Like” - enquanto escondo uma profunda irritação.

 

A extrema sageza artístico-poética dos petizes não cai do céu: estes amigos – historiadores de esquerda, cronistas que prometem imolar-se no fogo se as reformas baixarem – tendem a criticar o pai de classe média que tenta encarreirar o filho para um curso universitário (“Marketing de Cenas”, “Gestão do Diabo a Quatro”), vendo nisso um excesso de competitividade que recusam para os seus. Mas acabam por fazer o mesmo, condicionando a garotado de modo a que se tornem o que os pais sonharam.

 

Estes miúdos nunca ouviram uma canção da Xana Toc-Toc, muito menos viram um episódio do Noddy. Falam inglês aos quatro, sabem contar até cem, não brincam com pistolas porque a agressão é uma coisa feia e aos fins-de-semana são levados a workshops de barro porque o que seria de nós se não transmitíssemos às crianças o nosso passado. Por vezes viro-me para o imbecil do meu filho e berro-lhe: “Porque é que não produzes desenhos de elevado potencial artístico, palerma de um raio?” E de volta ele dá-me um coice: andar à pancada, perseguir pombas (por mais que eu lhe diga que nunca vai apanhar alguma), isto são as brincadeiras que ele aprecia. O catraio não sabe contar, não sabe ler e não parece interessado em aprender. Grama é de comer: para ele uma refeição só acaba quando já não há mais comida em casa e não se consegue mover.

 

O meu puto é um bocado bronco – e cruel: adora aquela cena num dos Indiana Jones em que o dito, perante um humano de um país em desenvolvimento que o ameaça com uma espada, saca da pistola e, sem mais, dispara.

 

Há muito que desisti de o educar – o meu objectivo, ao fim de cada meia semana com ele, é simplesmente entregá-lo vivo à mãe. E quando, dentro de anos, tudo na vida dele ruir, espero que o mundo ainda seja suficientemente machista para responsabilizar a mãe. Porque é que desisti? Porque, 1: ele não diz nada que me interesse, 2. não se cala com perguntas imbecis; 3: não posso ver bola sossegado que pede logo o Panda. Eu sei que devia esforçar-me para lhe dar o melhor – mas porque é que hei-de dar o melhor a um tipo que não me agradece quando lhe faço o jantar e a quem limpo o rabo há quatro anos e mesmo assim insiste que sabe mais que eu? Se sabes mais que eu limpa o teu próprio rabo.

 

Há dias fui buscá-lo à escola e descobri-o num estado próximo do de um refugiado sírio, com folhas no cabelo e o casaco coberto de terra.

 

“O que é que te aconteceu?”

“Andei pelo chão”.

“Mas porquê?”, perguntei, imaginando-me dentro de anos a ir pô-lo no Patriarche, com um vício em heroína, ou a ir buscá-lo ao hospital após um acidente de mota.

“Por causa das minhocas”.

“Que minhocas?”

“Há minhocas na terra”.

“E então?”.

“Eu queria ver as minhocas e por isso andei pela terra”.

 

Confesso que fiquei comovido com o meu pequeno bronco: o palerma demonstrou curiosidade, o princípio básico da inteligência (que se opõe às certezas do bom gosto). Tinham-lhe dito que havia minhocas na terra e ele não foi de modas: toca a ir para o chão procurá-las.

 

“Encontraste alguma?”

“Não. Mas amanhã vou procurar outra vez”. Há-de haver lugar no mundo para putos broncos, sem poesia, que não foram desenhados desde bebés para serem especiais. Que mais não seja, no Patriarche.

Eu acho que
P3 now speaks English. See our galleries

Audio

Laura quer que as pessoas entrem no atelier dos artistas "com um clique"

Entrevista

Plataforma de denúncia de emprego precário e ilegal Ganhem Vergonha reuniu quatro anos de abuso num livro. Já há “mais consciência” e “discussão pública” — mas...

Salvador, o vencedor do Festival da...

Ilustração // A euforia começou por ser portuguesa: Salvador Sobral interpretou a canção que...