Comportamento

Reborn: a arte de criar bonecos quase iguais a recém-nascidos

Chamam-se “reborns” e são feitos à imagem e semelhança do ser humano, de tal forma que se torna difícil distingui-los de bebés reais. Em Portugal, é uma arte ainda pouco conhecida, mas que já tem alguns seguidores. O P3 falou com Andrea Melo, coleccionadora e pintora destes bebés

Texto de Andreia Martins • 24/02/2014 - 23:12

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Há quem desvie a cara e tape os olhos com discrição ou não consiga sequer olhar para eles. Há também quem fique maravilhado com as formas e as linhas tão realistas que lhes queira pegar, tal e qual como num recém-nascido. “Os reborns despertam sempre uma reacção. Indiferente ninguém fica", diz Andrea Melo, coleccionadora e pintora de bonecos “reborns”. 

 

Não ficamos, de facto. O berçário que Andrea construiu para os cerca de doze bebés que coleccionou até à data assemelha-se em tudo a um quarto de bebé. E os bebés acompanham as particularidades do corpo humano até ao mais ínfimo pormenor: as pestanas, os remoinhos do cabelo, as têmporas, o azul turquesa das veias simuladas debaixo da pele.

 

Andrea Melo tem 44 anos e é profissional na área da informática e análise de sistemas. Encontrou nos “reborns” um “hobby” aliciante e tornou-se coleccionadora destes bonecos, autênticos simulacros dos bebés. A vontade de coleccionar juntou-se ao gosto que sempre teve por bonecos: “Eu sempre gostei de bonecos. A primeira coisa que comprei com o meu dinheiro foi um Nenuco.” Em 2011, quando a sogra ofereceu uma boneca vulgar à filha pelo Natal, Andrea só pensou: “Também vou querer um desses para mim.”

 

Lembrou-se então de ver na televisão uma reportagem, ainda no Brasil, sobre mulheres brasileiras a viver nos Estados Unidos que se dedicavam à pintura e construção de “reborns”. Não se lembrava dos nomes técnicos que tinha ouvido, mas algumas buscas na Internet levaram-na às páginas intermináveis no eBay com estes bebés peculiares. Comprou um boneco, depois outro, e mais um a seguir. “Quando uma pessoa gosta de coleccionar compra mais, não fica num só. Depois queremos bebés com uma cara X ou Y”. Andrea não parou até juntar sete ou oito bebés. E pensou: “Também devo conseguir fazê-los”.

 

Nascimento de um bebé diferente

A arte “reborn” terá os seus antepassados nas mães que viveram no tempo da II Guerra Mundial, sugere Andrea. Perante tanta destruição, eram obrigadas a reconstruir, dentro do possível, os brinquedos dos seus filhos. Principalmente na Alemanha e no Reino Unido, construiu-se um gosto pela reciclagem dos bonecos, que precisavam muitas vezes de cabelos ou roupas novas.

 

Nos anos 90 surge o nicho de mercado muito semelhante ao que se pode encontrar actualmente. Contudo, com algumas técnicas menos ortodoxas. Por exemplo, os bebés geralmente eram colocados numa panela depois de pintados, quando hoje em dia é no forno que a tinta cura no vinil. Estas práticas acabam por depender das preferências do coleccionador ou do próprio “newborner” (a quem cabe a personalização dos “kits”, membros superiores, inferiores e cabeça, pré-fabricados pelos “reborners”). 

 

Normalmente o método seguido é a compra de um “kit” de uma escultora específica, isto é, de um determinado formato de pernas, braços e cabeça, todos separados para facilitar o processo da pintura. Mesmo que os passos a seguir sejam semelhantes, o resultado nunca é igual, nem que seja feito com o mesmo “kit” pela mesma escultora. “Cada pessoa tem a sua forma de fazer, a sua visão e intuição”. Cada um deles é “one of a kind”, explica a artista.

 

A pintura é feita com diversas camadas e depende do tom de pele pretendido (pode ultrapassar as doze camadas). Quando é atingido o tom de pele desejado, preparam-se os feitios das unhas e os orifícios do nariz, acrescentam-se os olhos, normalmente de vidro, e é iniciada a implantação de cabelo (lã das cabras Angorá) num processo moroso a que se dá o nome de "rooting".

 

Só depois da ida ao forno o tronco do bebé é preenchido com materiais próprios e são dados os últimos preparos, como vestir e calçar o novo bebé ou a colocação de pestanas e de pequenos ímanes (dispostos com o propósito de prender uma chupeta ou um laço).

 

Amigos dos doentes com alzheimer

Observamos o ar pacífico destes bebés que ganham vida perante o nosso olhar. A verosimilhança com um ser vivo é tal que saem destes corpos de vinil os mais variados usos. E os mais variados estereótipos.

 

Andrea dá o exemplo de uma "reborner" estrangeira que trabalha num lar de idosos e usa os bonecos como forma de terapia para doentes de Alzheimer e com outras demências: “Com os bonecos ao colo ficam mais calmos. Humanizam mais as pessoas”.

 

Também o uso de “reborns” recém-nascidos é cada vez mais frequente para usos publicitários, cinematográficos e televisivos, uma forma de manter e até aumentar realismo em determinados contextos, como um nascimento — os bonecos permitem instalar aparelhos que simulam o bater do coração e os movimentos respiratórios.

 

Uma outra "reborner" australiana, dedica-se a construir e pintar "reborners" para fins militares. O lado humano que apresentam é tão credível que o exército os usa para aprender a matar. “Esta é a prova de que eles são objectos, são coisas. Há quem construa um vínculo, mas isso é como tudo. É uma colecção como as outras”.

 

Andrea diz que os seus clientes são quase todos coleccionadores ou curiosos que compram uma boneca para oferecer. E opõe-se ao mito e controvérsia muitas vezes criada em como estes bebés são em grande parte usados para o luto de pais que perderam um filho de forma prematura: “Só tive um pedido para replicar um bebé falecido. Respondi à senhora que não o fazia porque não acho que seja uma coisa saudável. A pessoa precisa de fazer o luto e lidar com as suas perdas”.

 

Para a artista, os "reborns" andam de mãos dadas com a realidade, mas não tanto: “Há pessoas que pedem para fazer um boneco com a cara do filho em pequeno, mas esse não é o tipo de trabalho que me agrada. É uma responsabilidade muito grande, e temo as expectativas das pessoas. Pensam que vão ter uma fotocópia da criança, e isso não é verdade.”

 

"Está muito frio, ponha um gorro na criança!"

Não é o período de gestação de um bebé normal, mas também exige alguma perserverança. “Paciência de Jó”, desabafa Andrea, enquanto faz os implantes de cabelo de um futuro menino de olhos em bico e pele amarelada que terá origens orientais. O processo de implantação que por si só pode demorar mais de 30 horas seguidas. “O segredo é não fazermos disto nenhuma linha de montagem. É como um parto, tem de demorar”.

 

O método de elaboração dos bebés é tão moroso que se torna por vezes difícil conciliar com o emprego. Andrea aproveita os fins-de-semana para a pintura e as horas de almoço e as viagens de comboio para o trabalho para fazer os implantes de cabelo, ou o chamado "rooting": “Ando com a cabeça e com as agulhas na mala e vou implantando no comboio. As reacções são fantásticas.”

 

Por ser uma arte ainda pouco disseminada em Portugal, a artista tem episódios curiosos para contar. Os mais velhos são os mais genuínos e têm geralmente dificuldades em acreditar de que não se trata de um bebé. Conta Andrea que já a chamaram à atenção múltiplas vezes quando sai com eles a público: “Está muito frio, ponha um gorro na criança!”.

 

O João e a Helena são da família

Todos os “reborns” que Andrea comprou têm um nome e data de nascimento definida. Bem apresentados e penteados, alguns de fralda ou “bodies”, outros com os vestidos que ficaram da própria filha, todos são tratados com carinho. Mas o João é o "reborn" favorito: “Quando quero pegar em algum é nele que pego. Acho que ele tem personalidade. É muito bem feito. É o meu preferido. Mandei fazer a irmã dele do mesmo kit, é a Helena.”

 

O João e a Helena nem sequer ficam com os outros, no berçário situado num anexo da casa, mas sim dentro do próprio lar, onde curiosamente, quem liga menos à bonecada é a filha de nove anos: “Não liga absolutamente nada, mas quando está cá com as amigas elas brincam todas com eles. Menos com o João, claro”.

 

São os mais velhos que mais se dedicam ao que poderíamos considerar à primeira vista como um brinquedo. Desde o marido que ajuda na vida doméstica, à sogra que costura os pequenos vestidos, todos trabalham em prol de um passatempo que não passa porém disso mesmo. “Ninguém vive disto. É um investimento muito alto porque o material é muito caro”. 

 

O dinheiro do lucro é gasto em novos materiais e o mercado ainda é pequeno. Andrea Melo acredita que a tendência é que se torne cada vez mais numa prática conhecida, até pela presença crescente em exposições e feiras de miniatura nos últimos meses. E até já há quem lhe peça aulas para aprender a fazer a mesma arte. Mas a falta de tempo e o grande investimento inicial demove alguns interessados, e como diz Andrea, “é caro e demora que dói, mas só dessa forma os bonecos ficam perfeitos”.

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