Creative Commons

Crónica

Acabar com o lixo nas campanhas eleitorais

As redes sociais ganharam um peso enorme nas campanhas. Mas nem por isso diminuíram o número de flyers, cartazes, jornais, desdobráveis, folhetos, bandeiras e outras toneladas infindáveis de coisas que custam dinheiro e que mais tarde originam resíduos. Será que essas mesmas criações contribuem para informar os eleitores?

Texto de Micael Sousa • 24/09/2017 - 14:19

Micael Sousa, Eng.º Civil e Mestre em Energia e Ambiente, estudante apaixonado por História, membro de várias causas

Distribuir

Imprimir

//

A A

Ando envolvido em campanhas eleitorais há uns anos. Em 2013, fiquei realmente esperançoso que se pudessem alterar os modos tradicionais de fazer campanha, habitualmente assentes na produção de imensas peças gráficas materiais, pensadas para imprimir em vários formatos e na oferta de brindes de campanha. Nessa altura as redes sociais estavam a revelar poder ser uma alternativa viável para ultrapassar essas metodologias de comunicação que geravam volumes consideráveis de despesa e de resíduos e que pouco faziam para valorizar os conteúdos políticos.

 

Em 2017, as redes sociais ganharam um peso enorme nas campanhas, havendo quem use essas plataformas mesmo nos meios pequenos. Mas nem por isso diminuíram o número de flyers, cartazes, jornais, desdobráveis, folhetos, bandeiras, canetas, t-shirts, calendários, porta-chaves e outras toneladas infindáveis de coisas que custam dinheiro e que mais tarde originam resíduos. Obviamente que nem tudo pode passar directamente para o formato online. Há quem não domine esses meios de comunicação e tem todo o directo em aceder à informação, o que impossibilita o abandono total dos formatos tradicionais. Apesar disso, é intelectualmente desonesto dizer que as coisas estão bem como estão. Será que esta parafernália de produtos de campanha contribui para informar os eleitores e ajuda a decidir em consciência?

 

Por outro lado, para quem não sabe, os orçamentos e financiamento público para as campanhas são pré-determinados com base no número de votos obtidos anteriormente por esse partido ou movimento político. Ou seja, este modelo gera desigualdades enormes na capacidade financeira para montar uma campanha eleitoral. Sem campanha eleitoral, independentemente do formato, é difícil comunicar politicamente. E sem isso mais difícil é obter um bom resultado eleitoral.

 

Ontem, quando saia do prédio, notei que o nosso caixote de lixo comum estava repleto de propaganda partidária, misturada com folhetos de supermercado. Registei isso em fotografia e lancei o tema no Facebook para discussão. Ao contrário de muitas outras partilhas políticas que faço, esta recebeu imensos comentários e soluções válidas para o desafio que lancei: “Há que repensar as práticas e as metodologias para não cairmos na irrelevância e na mera produção de resíduos. Alguém sugere novas formas de comunicar politicamente?”. As sugestões foram imensas e das quais retenho: “dizer a verdade”; “usar redes sociais”; “usar storytelling”; “usar gamification”; “definir parâmetros em que todos comuniquem no mesmo formato e segundo as mesmas regras”.

 

A estas sugestões e reflexões junto algo que tenho em mente há algum tempo, que passa pelo “benchmarking de campanha”, direccionado para os conteúdos, independentemente do formato. Ou seja, em estrita igualdade e sem existirem orçamentos de campanha desiguais, haveria um formato padrão, do tipo jornal público, em multiformato, em que todos os candidatos teriam igual espaço para comunicar. Haveria uma espécie de ferramenta que gerava análises através de checklists, com as propostas das várias candidaturas colocadas lado a lado para avaliação comparativa. Os cartazes seriam colocados todos no mesmo local, previamente definido, com igual área disponível para cada projecto político.

 

Imaginem como seria uma campanha desta natureza, em que facilmente se evitaria polémicas inúteis, golpes baixos de teatralização política. Sobressairiam os conteúdos e a análise dos currículos dos candidatos. Teríamos ao nosso dispor ferramentas rápidas de análise e registo das promessas que todos haveriam feito. Seriam opções mais sustentáveis, do ponto de vista ambiental, ao reduzirem a produção de resíduos, mas também civicamente, pois dariam mais seriedade às campanhas eleitorais e produziriam memória futura passível de ser utilizada em processos de melhoria contínua.

Voltar ao topo

|

Corrige
Eu acho que