Miguel Manso

Crónica

A festa começou, a festa nunca acabou!

A Festa do Avante! vista por quem gosta demasiado da Festa do Avante! Retrospectiva de um fim-de-semana comunista

Texto de João André Costa • 04/09/2017 - 11:33

João André criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

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É sexta-feira, 6 da tarde, as portas acabaram de abrir e juntos e de mãos dadas galgamos a colina e pisamos o cheiro fresco da relva fresca ao fim do primeiro fim de tarde de Setembro. Os olhos atravessam os pavilhões e as bancas iniciais à direita e à esquerda, mas as nossas pernas têm um único fito: chegar rapidamente ao topo da colina, ao topo da Festa do Avante!, para, com os pés bem assentes no chão, vislumbrar a festa, começar a festa, ver a festa, o Palco 25 de Abril ao fundo defronte do Tejo, largo, o palco e o Tejo, a cidade que é um país com pavilhões de Bragança a Lisboa, da Madeira a Vila Real, as pessoas, todas as pessoas, tantas as pessoas, os teus pais que vêm já atrás, o teu irmão está a caminho e o Zé também, os teus primos vêm amanhã e o teu tio já cá está e vamos estar todos juntos, outra vez, porque a Festa do Avante! é uma festa de todos e para todos e mal podemos esperar pela música, mal podemos esperar e dançar.

 

A Festa do Avante! é a descoberta, começando logo pelos sabores tradicionais, a sopa da pedra em Santarém, a morcela com ananás dos Açores, os bolos de mel do Alentejo, o arroz de marisco do Algarve (já estão com fome? Eu estou), o leitão da Bairrada, os papos de anjo de Braga, os queijos da Beira Baixa, enfim, a lista continua e a vontade de comprar tudo e levar metade no bucho e metade na mochila é mais que muita.

 

Mas não só, o Avante é música, da Carvalhesa, aos saltos, ao rock e ao fado, o jazz, pop, blues, sons do mundo, sons de Portugal, a música clássica à sexta-feira (está quase a começar, é hoje à noite), do palco Arraial ao palco Novos Valores, do 25 de Abril ao 1.º de Maio e tudo ao mesmo tempo, tudo a acontecer, e nós que somos só dois com o programa nas mãos e apenas três dias para ver tudo, ouvir tudo, sentir tudo.

 

Porque ainda há o teatro, este ano vamos ver “O Meu País é o Que o Mar Não Quer”, amanhã, às 17h00, pois à noite não dá e só o nome já chama a atenção, senão não há tempo, não há tempo para o cinema, para a Feira do Livro, as exposições e os debates, as trocas de ideias, os concertos, mais concertos, ver a lua e as estrelas com o Máximo no Espaço Ciência e ainda ter tempo para uma perninha no torneio de Xadrez e outra na Corrida da Festa, domingo de manhã, sem esquecer, mais uma vez, as comidas e as bebidas, já levo uma Ginjinha de Óbidos, mais uma, no bolso, e talvez esteja a ficar velho, caso contrário de onde me vem todo este apetite mais os 20 quilos que antes não tinha e agora tenho?

 

O problema da Festa do Avante! é não podermos deixar de gostar da Festa do Avante!, de viver a Festa do Avante e repetir a Festa do Avante!. E então? Porque, afinal, a Festa do Avante! é feita, construída, erguida, celebrada e partilhada por comunistas! Sim, em pleno século XXI! E, pasmem-se, se isto é o comunismo, então talvez o comunismo não seja assim tão mau.

 

Na festa respira-se convívio, confraternização, segurança, curiosidade. Em cada canto há algo para ver e ao longo de três dias mais de 200 espectáculos e eventos para conhecer e fazer parte. E sabem que mais? Os comunistas estão-se bem nas tintas para o que os outros pensam e apresentam-se como são.

 

A Festa do Avante! é o maior evento político e cultural do país, como uma Expo-98 repetida todos os anos, uma celebração da nossa cultura, desde a raiz às sementes, da História aos temas de hoje, promovendo debates e novos valores, acolhendo representações de outros países e convidados de outros partidos, para que juntos celebremos o que de melhor Portugal tem para dar: educação, cultura e a barriga cheia, de preferência num dia de sol seguido de uma noite quente.

 

Por isso, o problema, por isso, a confusão e a apreensão, as dúvidas e os medos e a grande dificuldade em admitir, pois quem vem, de onde quer que venha, não deixa de gritar a meio da Carvalhesa, e de mãos e pés no ar, não haver festa como esta e assim talvez sejamos todos um pouco comunistas, e por aqui não virá mal ao mundo, antes pelo contrário, e uma vez comunista, sempre comunista.

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