Francois Lenoir/Reuters

Crónica

O que é que o (Emanuel João Miguel Frederico) Macron tem que eu não tenho?

O Macron tem a França a seus pés, eu tenho o chão, e já é bom para não cair. O Macron aparece nas revistas e televisão, eu leio as revistas e vejo a televisão onde aparece o Macron

Texto de João André Costa • 14/05/2017 - 11:53

João André Costa
João André criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

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Para já, é um rapaz bonito, bem-parecido, veste-se bem, de um modo simples e elegante, ao contrário deste vosso cronista de óculos tortos, dentes tortos, pés tortos, pestanas tortas (vocês já viram pestanas tortas?) e roupa amarrotada dentro de sacos de plástico ao volante da bicicleta todos os dias a caminho do trabalho. Pois é, ao menos tenho um trabalho, e nisso eu e o Macron somos iguais, temos ambos 39 anos e, mal ou bem, fazemos alguma coisa pela vida.

 

No entanto, o choque não podia ser maior: como é que alguém da minha idade consegue ser Presidente da França enquanto eu não consigo ser presidente de coisa nenhuma, até porque lá em casa todos mandam em mim, manda a mais nova e manda a mais velha, eu quero isto e eu quero aquilo, ó pai leva-me ali, ó pai olha a mana, ó pai olha a outra mana, e eu sempre a postos como um soldado em sentinela, manda a mulher sempre cansada para tudo e para nada e eu a lavar pratos, a trocar os ciclos da máquina de lavar roupa e a tomar sintéticos por algodão, ou então ao contrário, e alguém que me explique, por favor, antes da próxima saia favorita estragada e um mês sem aquilo que todos sabem, para já não falar das pilhas de roupa (mal) passadas a ferro, roupas de ferro, aço e alumínio erguidas até ao céu como blocos de apartamentos a arranhar o céu, inatingíveis, intermináveis, hirtas e enferrujadas, sempre à espera, como o cão que vai onde quer e não para onde eu mando, que não obedece a nenhum comando e faz onde quer para mau grado da vizinhança, e isto tudo depois de 12 horas de trabalho e 14 horas nas filas para a ponte e da ponte, mais os colegas a quem não se pode dizer coisa alguma sob pena de uma queixa prontamente passada a “imeile” e papel, e com colegas destes não precisamos de patronato, portanto tudo em fila e respeitinho no trabalho, na rua, na igreja e em casa, e por aqui se percebe o porquê da impossibilidade de se ser Macron, igual ao Macron, como o Macron, o Macron.

 

O Macron tem a França a seus pés, eu tenho o chão, e já é bom para não cair. O Macron aparece nas revistas e televisão, eu leio as revistas e vejo a televisão onde aparece o Macron. O Macron tem poder, eu tenho cagufa, medo, miúfa de abrir a boca e berrar tudo quanto me corre no peito, nos pulmões, no ar que me falta todos os dias e me manda viver, correr, acordar, correr, trabalhar, correr, dormir, correr, obedecer, correr, morrer, correr.

 

Afinal, o que é que o Macron tem que eu não tenho? Vou à “net”, Emmanuel Jean-Michel Frédéric Macron, né le 21 Decembre 1977. Ah, então é isso, um ano a mais, este ano o Macron vira os 40 e eu ainda agora nos 39. Para o ano é a minha vez.

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