Carlos Barria/Reuters
Donald Trump

Crónica

Trump e Hitler

A verdade é que não parece haver grandes ligações entre Trump e Hitler, até porque isso seria propor que Trump tem uma ideologia e uma inteligência (Hitler tinha ambas mas usava-as para fins absolutamente macabros)

Texto de Raúl Testa • 02/02/2017 - 16:57

Raúl Testa
Raúl Testa é leiriense. Formação académica: Direito. Paixão profissional: marketing. Acredita que podemos mudar o mundo

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Aquilo que fiz com o título chama-se clickbait (usar algo que tenho no texto mas de forma tão sensacionalista que leve mais leitores a clicarem no artigo) e é um dos principais responsáveis pela afirmação definitiva da era da pós-verdade. Não é o único responsável, visto que a morte do jornalismo moderno e as redes sociais contribuem em muito para isto também.

 

A verdade é que não parece haver grandes ligações entre Trump e Hitler, até porque isso seria propor que Trump tem uma ideologia e uma inteligência (Hitler tinha ambas mas usava-as para fins absolutamente macabros). Na realidade, Trump é tão mau que nem é necessário chamar-lhe nazi.

 

Entremos no (real) assunto do artigo, a pós-verdade. À primeira vista parece ser apenas um termo intelectual para a comum “mentira”. No entanto, a época da pós-verdade difere da época da mentira o apurar da verdade não é importante. A pós-verdade pode definir-se como uma linha de pensamento político que sobrepõe o apelo à opinião e emoção das massas à verdade dos factos.

 

Acredito que esta cultura política já se encontra entre nós há muito tempo e que o advento da internet (com especial incidência nas redes sociais) serviu para a fazer crescer. Curiosamente, quando se criou a internet acreditava-se, com algum fundamento, que uma sociedade ligada pela internet, em que o conhecimento gratuito aumentaria exponencialmente ao passar de cada ano, seria cada vez mais esclarecida e daria cada vez menos espaço ao populismo que sustenta a pós-verdade.

 

Só que com a criação das redes sociais e a adesão da maioria da população do mundo ocidental às mesmas criou-se o cenário perfeito para a pós-verdade e o populismo que com ela vem. Vivemos numa época em que o facto real de a tomada de posse de Donald Trump ter tido efectivamente menos gente do que a de Obama deixa de ser importante e o presidente pode simplesmente mentir e dizer que foi a maior e melhor tomada de posse de sempre, um tempo em que a "Alt-Right" aproveita o "Breitbart" para fazer as pessoas acreditarem que vivemos numa sociedade mais violenta e insegura do que há dezenas de anos (quando todas as estatísticas mostram o contrário). Ou, num sentido invertido, também vivemos na época em que é ok para os media criar enviesamento de opinião aproveitando a má fama de Trump para o culpar de coisas que até Obama fazia, como bombardeamentos por drones que matam inocentes (alguma imprensa nem hesita em comparar Trump a Hitler).

 

Vivemos numa época em que cada vez menos lemos as notícias até ao fim e raramente verificamos a sua autenticidade e as suas fontes. Partilhamos carradas de notícias falsas nas redes sociais e mesmo que alguém lá vá desmentir aquele facto o que conta é que, ao partilharmos aquilo, infectámos mais gente com esses factos falsos. As redes sociais funcionam, essencialmente, como o café onde antigamente íamos ter com os nossos amigos e conversávamos sobre factos que nos tinham sido contados como verdade, mas que não o eram. A diferença é que, no café, infectávamos seis pessoas com essa mentira; nas redes sociais podemos infectar milhares.

 

Precisamos de controlo de conteúdo nas redes sociais? Não me parece que devamos ir por aí até porque temos de defender a liberdade de expressão (com a ressalva da proibição de incitamento à violência, isso não pode nunca ser tolerado). Precisamos, isso sim, de informação correcta pela parte da imprensa (precisamos que os telejornais deixem de parecer reality shows) e, acima de tudo, precisamos de começar a impor nas nossas escolas uma política de validação da verdade comprovada dos factos e não daquilo que nos dizem ser a verdade. Precisamos de produzir jovens mais irreverentes, curiosos e investigadores, e menos autómatos.

 

Pelo menos se quisermos evitar mais "Trumps", e até "Hitlers", no futuro.

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