Adriano Miranda

Crónica

Donald

Donald Trump, que sonha com muros de arame farpado, podia tornar os Estados Unidos uma grande arena. Retirava os homens e mulheres de bem e ficava com a escória. Finalmente davam-nos paz, que é coisa que raramente nos deram

Texto de Adriano Miranda • 27/01/2017 - 13:11

Adriano Miranda é fotojornalista do Público
Adriano Miranda é fotojornalista do Público

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Havia vinho, bacalhau, arroz doce, bolo-rei. Havia família. Os meus pais, os meus avós, os meus tios, as minhas primas. Havia lareira. Conversa e brincadeira. Deitávamo-nos a acreditar no Menino Jesus. Levantávamo-nos a acreditar que na chaminé existiam prendas. E existiam mesmo. Nas botas sempre uma nota. Do Menino do meu avô. Depois eram os brinquedos, as meias e o cabrito ao meio-dia. Num Natal dos anos 70 o Menino do meu tio Adriano ofereceu-me um globo. O Menino do meu tio Ulisses presenteou-me com um jipe de lata do exército americano.

 

A esfera terrestre tinha uma lâmpada no núcleo. No meu quarto escurecido pela noite, ligava o interruptor e os continentes e oceanos brilhavam. Ficava horas a ler os nomes dos países. Percorria com o meu dedo as fronteiras. Fronteiras recortadas e fronteiras rectas. Perguntava a mim próprio porque existiam aqueles riscos. Porque não era o mundo um país único. Depois de sair da escola e aprender a tabuada que nunca consegui decorar nem que fosse a cantar, brincava às guerras com o jipe de lata do exército americano. No chão fazia barricadas com índios e cowboys, carros e outras coisas úteis para a guerra imaginada. Estava eu longe de saber que a minha brincadeira da tarde era a resposta para a dúvida da noite.

 

O globo e o jipe de lata ainda hoje os conservo. O globo está desactualizado. Desapareceram países e refizeram-se fronteiras. O jipe de lata continua actual. Está frio. O dever matou o meu sono. Bem cedo saí do conforto das mantas e mergulhei no nascer do dia. Quase tudo era branco onde só havia verde e castanho. Fotografo. Os dedos gelam. À minha frente um campo de milho abandonado parece um pelotão enfraquecido. Cada maçaroca é um soldado, corcunda, vergado e vencido. Pela tarde gelei ao ver a tomada de posse do 45º Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump.

 

Se o frio da tenra manhã me trazia felicidade (fotografar é um acto de felicidade) o gelo da tarde trouxe-me apreensão. Tantos pontos de interrogação andam no ar. Para mim, e conhecendo a história recente dos Estados Unidos, nada me espanta. Donald é o rosto da pior América. Desde a bomba de Hiroxima, à guerra do Vietname, às ditaduras made in USA, às invasões, à guerra do Iraque, aos crimes da CIA, ao racismo, à segregação, aos milhões de pobres, Donald é o americano do poder, corrupto, manipulador, racista e xenófobo.

 

Donald é a súmula, o pacote concentrado, de tantos seres que à face da Terra pensam e agem como ele. Criaram o sistema do bem supremo, o dinheiro. Agora que Donald chegou à Casa Branca como figura patética e feia, muitos o criticam em público mas riem em privado como hienas esfomeadas. Agora é que vai ser.

 

Donald, que sonha com muros de arame farpado, podia tornar os Estados Unidos uma grande arena. Retirava os homens e mulheres de bem e ficava com a escória. Finalmente davam-nos paz, que é coisa que raramente nos deram.

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