Miguel Manso

Crónica

Marcelo, o presidente que sente como nós

Foi-se o Obama, ficou o Marcelo, pelo menos em humanismo. E o mundo não deveria começar por aí?

Texto de Marco Gil • 27/01/2017 - 16:18

Marco Gil é fotógrafo e contador de histórias

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Foi-se embora um, mas ficou o outro. Não é comum a solidariedade de uma forma tão intrínseca nos políticos, o lado humano tão descoberto e a consciência de um dever que se lembra primeiro das pessoas e só depois dos protocolos. É por isso que até os acho maus políticos porque têm uma capacidade humana extraordinária, porque abdicam dos privilégios, porque são mais comuns que muitos de nós, porque são disponíveis, mas acima de tudo porque não perdem a identidade de valores que lhes vêm de sempre e os tornam únicos. Não separam a vida política da pessoal, porque nem precisam… são eles próprios nos cargos que desempenham.

 

Foi-se embora o Obama, mas creio que ficamos com o Presidente mais humano de todos, o Marcelo. É certo que não conheço ao pormenor os outros todos, mas para que preciso de atravessar o mundo para constatar o facto? Se o vejo a atravessar multidões diariamente, abrir o peito às balas por convicção e solidariedade. Se o vejo no meio de todos nós, seja a nado, a pé, ou a engraxar os sapatos na rua enquanto atende o neto no Alcatel menos táctil de todos? Se nunca o vejo sisudo, nem a negar sorrisos, se nem sinto que os disfarce. Porque se aproxima de todos por opção. E se lhe conheço aquela que para mim é a maior virtude de todas: o poder (para lá do que já tem) de dar um abraço a quem conheceu no segundo anterior.

 

Não sei se o Presidente Marcelo conhece de cor a força de um abraço, mas sei que ele os dá sem pensar, que exagera neles sem perceber o bem que aquilo que faz, que o faz com sinceridade; porque os abraços sinceros não enganam. Recuo no tempo, avanço, posso até parar nele por décadas e não me lembro de um Presidente da República em lado algum que abrace literalmente o povo, seja em horas de aperto, seja em dias de felicidade. Pode parecer estranho, ou até não, mas um homem que troca o chapéu com abas pela boina é para mim alguém mais próximo do comum que do distinto ou distante. Ele se calhar nem sabe, mas se olharmos de repente para um homem de chapéu vemos um proprietário com hectares em fazendas e homem da boina é sempre o nosso Pai ou o nosso Avô, dá-nos um conforto paternal perceptível a quem sente tudo ao detalhe. Se não nos esquecermos que também troca de carro mas pela gama baixa, de motorista para não motorista, que dispensa os seguranças para dar um mergulho na praia no meio do povo ou para engraxar os sapatos na rua, ainda percebemos melhor que ele é mais um de nós que um dos outros.

 

A probabilidade de ser bom Presidente depois do antecessor não era difícil mas a particularidade de fazer com que o admirem e saiba tratar o poder tão bem é por si só um feito. Acredito que nos possamos esquecer de muitas coisas quando nos lembramos do Marcelo (creio que ele me dispensa formalidades) mas nenhum de nós poderá esquecer o dia ou a noite que foi abraçar os sem abrigo, que lhes foi abrir sorrisos com a sua presença, mas que nos mostrou que não foi por ir, foi a sério, quando de tudo fez para levar aquele homem sem rumo para comer ou se abrigar. Imagino o espanto daquelas pessoas, mas consigo imaginar melhor os corações que ele aqueceu apenas por dar o exemplo ou por estar ali podendo estar noutro sítio qualquer, mas escolher que aquele era o melhor de todos.

 

Ele é o Presidente da República mas é também o mesmo homem que saiu de casa para ir à rua procurar por pessoas que lá vivem, dar-lhes mais um prato de sopa ou um cobertor. O Marcelo é hoje tremendamente inspirador; para mim, para todos, até para os que usam chapéus de aba. Construiu uma ponte que o liga directamente às pessoas, sem cancelas mas com uma proximidade difícil de conhecer noutro líder. Com um jeito próprio e familiar, simpático ou genuíno e com carácter e coragem. É o homem que começa a constituição pelo povo, lhe dá prioridade e só depois é o politico.

 

Marcelo sugere eternidade porque acaba como começa. Foi-se o Obama, ficou o Marcelo, pelo menos em humanismo. E o mundo não deveria começar por aí?

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