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Crónica

Não tenhamos vergonha de fazer parte da “elite”

No último ano, os vencedores venderam a ideia de que tinham derrotado a “elite” política, social, cultural, económica, o establishment das últimas décadas. Não temos vergonha desses substantivos-adjectivos que tentam denegrir e envergonhar a substância e a natureza daquilo que somos

Texto de Gonçalo Dorotea Cevada • 30/01/2017 - 11:13

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No último ano fomos a causa de todos os populismos: do Brexit à eleição do novo POTUS, Donald Trump, do crescimento do Podemos em Espanha ou da Frente Nacional em França, passando pelos atentados terroristas de Bruxelas, Nice ou Berlim.

 

Fomos a causa e os derrotados dos principais acontecimentos e factos políticos dos últimos doze meses. Ou pelo menos os vencedores e alguma imprensa assim gostam de pensar. Alguns vão aliás mais longe, afirmando que os últimos doze meses representam a vitória das “pessoas reais” (o que quer que isso signifique) e das “unknown and forgotten people” (?).

 

No último ano, os vencedores venderam a ideia de que tinham derrotado a “elite” política, social, cultural, económica, o establishment das últimas décadas. Numa palavra, que tinham vencido, finalmente, o “sistema”. Ora, esta ideia ficou, infelizmente, completamente enraizada nas sociedades ocidentais e parece ser um motivo de vergonha fazer parte dessa mesma “elite”. Porquê, pergunto. Será que nos esquecemos daquilo que somos, e daquilo que nos fez (e faz) estar ao lado da Chanceler Alemã Angela Merkel na sua política de acolhimento aos refugiados; ao lado da campanha Stronger In a propósito do referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia; contra a candidatura presidencial de Donald Trump; contra Marine Le Pen na sua tentativa de assalto ao Eliseu ; ou a favor de mais e maior globalização e comércio livre? Será que nos tornámos autistas sem memória?

 

Não olhamos de lado para a política de acolhimento de refugiados da senhora Merkel porque somos realistas ao admitir que a Europa também tem responsabilidade na destabilização dos vários poderes no Médio Oriente e no Norte de África, e sobretudo porque reconhecemos que são seres humanos que fogem da guerra. Mais, sabemos que a Europa precisa de receber imigrantes para manter os sistemas de segurança social, e que para que aqueles que já estão reformados (e aqueles que estão prestes a reformarem-se) continuem a receber as suas pensões.

 

Não defendemos o Brexit porque acreditamos que um Mundo mais globalizado e integrado é a chave para o crescimento e o desenvolvimento económicos. Nunca antes os Europeus viveram tão confortavelmente e em paz como nas últimas décadas. Não apoiámos o Brexit porque acreditamos que a Europa pós-colonial tem mais força e maior peso global e negocial quando junta e não dividida.

 

Criticámos e criticamos Donald Trump porque temos memória e conhecimento histórico. Porque visitámos o Yad Vashem de Jerusalém e o Museu do Apartheid de Joanesburgo. Rejeitámos a solução Trump pela forma boçal, leviana, grosseira e ignorante com que fez “política” durante a campanha eleitoral para as eleições Norte-Americanas. Será que nos esquecemos de que não estamos do lado errado da História e que por isso não temos que ter vergonha de fazer parte da “elite”?

 

Apelidam-nos de arrogantes e pouco democráticos por contestarmos a vontade das maiorias. Acusam-nos de sermos um verdadeiro paradoxo. Pergunto: e então? A Democracia não termina com a vitória ou a derrota deste ou daquele candidato, desta ou daquela ideia. A Democracia não é um processo estático que apenas se altera com a mudança dos ciclos políticos. Se assim fosse, todos os protestos e todas as reivindicações que ao longo da História do século XX tiveram lugar nas mais diversas regiões e nações do Planeta, seriam o fenómeno mais anti-democrático de sempre. Se assim fosse, os protestos pelo sufrágio universal no Reino Unido no início do século passado, as manifestações pelos direitos civis nos EUA na segunda metade do mesmo século, as “Damas de Branco” contra o regime Cubano, ou o movimento de independência da Índia liderado por Mahatma Gandhi, não passariam de actos subversivos contra a vontade das maiorias.

 

Por isso, não confundamos arrogância com a rejeição completa do relativismo político. Ou como alguns apelidam de double standards. Chamem-nos o que quiserem: “sistema”, “burguesia instalada”, “politicamente correcto”, “establishment”, “elite”. No final, nós não temos vergonha desses substantivos-adjectivos que tentam denegrir e envergonhar a substância e a natureza daquilo que somos e acreditamos, e que só nos deve orgulhar.

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