Adriano Miranda

Crónica

Homens de aço

Para mim, qualquer homem que dê o corpo pela liberdade é um herói. As barricadas podem ser diferentes mas o objectivo é o mesmo. Álvaro e Soares foram os nossos grandes homens

Texto de Adriano Miranda • 10/01/2017 - 13:32

Adriano Miranda é fotojornalista do Público
Adriano Miranda é fotojornalista do Público

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Numa aula de História do 12º ano, a professora fala do Forte de Peniche. Ninguém sabe o que foi. Ninguém menos um. O meu filho João descreve a prisão fascista e fala da fuga de Álvaro Cunhal. Ninguém sabe quem foi Álvaro Cunhal. A professora explica. Secretário-geral do Partido Comunista, quinze anos preso, oito dos quais em isolamento absoluto, protagonista da famosa fuga do Forte de Peniche. Os alunos ficaram de boca aberta. Fiquei na dúvida, pelo relato do meu filho, se o espanto foi pela resistência ou por alguma semelhança a um herói de Hollywood.

 

É de todo importante saber quem foi Afonso Henriques, mas muito importante será saber a História Contemporânea do mundo e do nosso país. De nada vale saber o caminho marítimo para a Índia se não sabemos o caminho que Salgueiro Maia fez até ao quartel do Carmo. O nosso futuro depende da nossa memória e da nossa interpretação dessas memórias, colectivas ou individuais. E para isso é essencial a liberdade.

 

E de liberdade se tem falado nos últimos dias. Mário Soares morreu. As memórias estão vivas. As várias interpretações também. Colei muitos cartazes contra Soares e acabei numas eleições a votar nele. Não lhe escondi a cara porque nada me custou. Sabia que estava a escolher a liberdade. Na noite da vitória saí para festejar com uma bandeira nacional. Senti o mesmo nas manifestações contra a Troika e Passos. É que existem momentos da nossa vida em que o futuro é mais importante do que as memórias. Costa e Jerónimo estão aí para o comprovar.

 

Para mim, qualquer homem que dê o corpo pela liberdade é um herói. As barricadas podem ser diferentes mas o objectivo é o mesmo. Álvaro e Soares foram os nossos grandes homens. Sei que o sectarismo de ambas as barricadas leva à demência de tantos analistas, escribas e comentadores. Eu e os meus filhos somos livres. Devemos a Álvaro e a Soares. Ao Álvaro agradeci no seu funeral com um cravo vermelho. Ao Mário agradeço com respeito.

 

Ao ver o funeral de Mário na televisão recebo a notícia que o Marco morreu. Tinha 92 anos. Fiz silêncio. O Marco foi um lutador contra a ditadura. A ele devemos a Liberdade. Foram tantos os que com sacrifício, talento, inteligência, e tantos outros com a própria vida, lutaram contra a violência, a miséria, a guerra, pela paz, pela democracia, pela liberdade. Devemos todos nós estar gratos por termos homens e mulheres assim. Não devemos esquecer.

 

No meu jardim-telhado, fica mais perto do céu, três árvores esperam terra para se alimentarem. Com a força dos braços e o engenho da curiosidade, revolto a terra escura e planto uma macieira, uma pereira e um pessegueiro. Álvaro, Soares e Marco estão ali. É a minha homenagem num dia de sol triste. Aquelas árvores darão frutos. Também nós, recolhemos todos os dias os frutos dos lutadores.

 

Obrigado.

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