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Crónica

O Mário

Somos capazes de vir a ter saudades daquela voz chinfrim, foi até ao fim, bendito.

Texto de Tiago Matos Silva • 09/01/2017 - 10:26

Tiago Matos Silva é antropólogo, doutorando e investigador

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Anjo safado, predestinado a ser todo ruim, praga no capim. Ainda garoto, na quarta classe, andei de Freitas ao peito (porque os meus pais eram muito de Direita) e já na altura era minoritário... haviam mais dois ou três como eu, a Débora pelo Zenha e o resto pelo “Bochechas”.

 

Aluno cábula (nem no colégio do pai sacava mais do que dezes e dozes), comunista indisciplinado, burguês revolucionário (com tudo o que chateia os burgueses e os revolucionários), social-democrata dos antigos (à Afonso Costa, à Jaurès), avental trinta vezes avental incapaz de largar um “irmão” (a não ser que fosse o Alegre), amigo da CIA e do Carlucci, sombra escura de Novembro, anti-fascista, anti-colonialista, anti-comunista, europeísta, federalista, introdutor do FMI e resistente ao FMI e à integração na Europa do Deutsche Bank, macaco mil vezes macaco, estrategista último, mula empacada para a Esquerda, traidor vinte vezes para a Direita (recuperável se conseguirem vender o mito da “Fonte Luminosa”); sobra-se-me a elegia fúnebre a mim, o anarquista, num suplemento carregado de bloquistas, bloguistas e comunas modernos (à espera que os antigos morram), “intelligentsia” a pataco de todas as matizes.

 

Logo o Mário Alberto... o Grande Arquitecto me perdoe, nesta casa de atentos historiadores contemporâneos estamos a babar... já sabemos que a morte dos vultos desencadeia a conversa, e se há conversa a ter sobre o Mário!.. Os cinco minutos de unanimismo vão durar isso mesmo, cinco minutos. A Assunção agarra-se à resistência a uma “possível hipotética nova ditadura” da mesma maneira que a Catarina se agarra à resistência a uma ditadura mesmo muito real mas muito mais antiga, para não terem de lidar com as partes que não interessam e não terem de dizer mal do morto, mas toda a gente percebe que o verniz vai durar isso mesmo: cinco minutos, isto vai ser lindo quando o PS o quiser enfiar no Panteão.

 

Esta conversa vai ser muito interessante: a Esquerda tem de decidir se o bicho era de cá apesar do travar da Revolução (mete aí o quê? 12 detenções pela PIDE) e a Direita se a criatura era de lá apesar da descolonização (vá sejam francos, só estão a carregar o Mário, o Almeida Santos e o Rosa Coutinho com o vosso próprio autismo.. estavam à espera do quê? De viverem em 2017 e serem patrões da fazenda?!).

 

Eu por mim, que já vim depois disto e (regra d’ouro) não compro brigas de velhos, é tudo seda, discutam as comadres para se saberem as verdades; os filhos que nos perdoem: João, Isabel.. vocês sabiam que o velho não se ia sumir no silêncio, que até no estertor do fim havia de provocar todo o mundo de todos os lados...

 

Somos capazes de vir a ter saudades daquela voz chinfrim, foi até ao fim, bendito.

 

Requiescat in pace...

 

Ó senhor guarda, desapareça!

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