Ammar Awad/Reuters

Crónica

A democracia é uma Trump(a)?

Nas democracias, quando são fiáveis, os eleitos espelham o povo que os elegeu. Não havendo abstenção e cada pessoa valendo um voto, trata-se de uma aritmética de maiorias simples de entender e calcular

Texto de Micael Sousa • 08/11/2016 - 10:33

Micael Sousa é um engenheiro que se licenciou em história e que se dedica à cidadania política

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A democracia nos EUA demonstrou aquilo que é: um sistema em que tudo é possível. Mas esta é apenas uma forma de democracia, que, tal como todas as outras, precisa de constante melhoria e aperfeiçoamento para não morrer. Apesar disso a democracia americana tem funcionado. O processo continua a demonstrar ser possível passar de um Obama para um Trump, logo, permite a diversidade. Pode parecer esquizofrenia, mas as pessoas são mesmo assim, mudam rapidamente de opinião, especialmente alguns grupos sociais.

 

Nas democracias, quando são fiáveis, os eleitos espelham o povo que os elegeu. Não havendo abstenção e cada pessoa valendo um voto, trata-se de uma aritmética de maiorias simples de entender e calcular. A grande questão é se queremos que isto seja mesmo assim.

 

O Estado-Nação está em crise e as sociedades nacionais transformam-se gradualmente em sociedades em rede. O interesse pela política formal, definida por fronteiras, perde-se nos canais de comunicação em tempo real, transforma-se em espectáculo e consumo. Enquanto houver liberdade de movimentação de pessoas, capitais e informação dificilmente se mobilizará alguém em contrário.

 

Também caminhamos para a especialização, que ainda vai convivendo com sistemas de governo fundados no seu oposto: o valor igualdade generalista. Ou seja, qualquer um pode ser eleito e todos têm o mesmo peso na altura de votar. Sabemos que depois não é bem assim no que toca às campanhas eleitorais, pois quem tem mais dinheiro consegue usar mecanismos para influenciar mais pessoas, especialmente naquela grande massa que tanto vota A ou B e que facilmente entra em populismos, tão do agrado de quem faz campanhas eleitorais massificadas. Aqui está um paradoxo difícil de solucionar. Daí não ser de admirar que os mais especialistas queriam cada vez menos saber dos assuntos políticos, suportados em generalidades e populismos.

 

Se Trump ganhou foi porque os americanos assim quiseram, segundo o seu modelo de democracia. Mas será que essa maioria estaria em condições de poder avaliar esse ou outro candidato? Dizer que não é muito perigoso para a própria democracia, pois arrisca-se o condicionamento das liberdades e quebra do princípio da igualdade. Mas poderemos ser todos iguais em direitos quando as capacidades e potencial de cada um são tão diferentes? Quem tem conhecimento teria um dever superior de o usar em benefício dos demais? Em liberdade cada um faz com esse conhecimento o que entender. Condicionar ou obrigar a esse envolvimento é antidemocrático. Mas se esses portadores de sabedoria não se envolverem nos processos políticos, a médio e longo prazo, direta ou indirectamente, também perderão.

 

Atendendo às estatísticas e projecções Trump terá ganho entre os “brancos” menos instruídos, garantindo mesmo assim grandes percentagens entre outros grupos sociais que vão surgir agora das análises eleitorais. Que dizer disto? Na era da informação andam os povos desinformados ou será que andam certos em ignorar a complexidade da realidade? Primeiro o Brexit. Agora Trump. Para o ano temos eleições em França. Tudo é possível.

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