Osman Orsal/Reuters

Crónica

O feijão-frade turco

A Turquia tornou-se como o feijão-frade, um país de duas caras. Por um lado, um país que se tenta aproximar do Ocidente e da União Europeia, mas que persegue os opositores ao regime

Texto de João Malhadeiro • 25/07/2016 - 09:59

João Malhadeiro é estudante de Ciências Farmacêuticas, nas quais o futebol é uma constante do quotidiano

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Esmagou uma tentativa de golpe de Estado; ordenou a detenção e o afastamento de mais de 50 mil opositores; decretou o estado de emergência na Turquia nos próximos três meses; suspendeu temporariamente a Convenção Europeia dos Direitos Humanos. Recep Erdogan é o homem do momento e a Turquia cada vez mais um país que representa duas dicotomias diferentes.

 

Localizada exatamente no meio da divisão entre Europa e Ásia, a Turquia é por estes dias o país que anda nas bocas do mundo. A tentativa falhada de golpe de Estado e as medidas de repressão tomadas por Erdogan, acentuam a decadência e revolta num regime autoritário que já perdura à cerca de 14 anos, mostrando um regime com duas faces completamente distintas.

 

Numa primeira fase, a sua ascensão ao poder ficou marcada por reformas constitucionais e legislativas que visavam proteger os direitos humanos e as minorias, caminhando no sentido da construção de uma Turquia mais democrática. Para além disto, empenhou-se ainda em resolver os problemas financeiros do país, bem como apostou ainda na melhoria dos cuidados de saúde e das infra-estruturas. Desta forma, surgia assim o charme turco, um país que respeitava as minorias, que chamava a atenção da comunidade internacional e que iniciava conversações e negociações para aderir à União Europeia.

 

No entanto, apesar da aparente acalmia do primeiro mandato de Erdogan, surgia a outra face da sua chefia, com o crescimento de um governo autoritário. As perseguições políticas começavam a tornar-se um hábito, os atentados à liberdade de imprensa uma realidade, sendo que o Facebook, Twitter e YouTube chegaram mesmo a estar bloqueados por ordem expressa do chefe de estado turco.

 

Para além disto, começaram a acentuar-se cada vez mais as diferenças religiosas no país. À medida que foi ganhando poder, Erdogan, muçulmano convicto, tornava cada vez mais frequentes as suas intervenções públicas em defesa dos valores islâmicos. Enquanto Presidente, chegou mesmo a afirmar que nenhum casal muçulmano devia usar contracetivos e que as mulheres muçulmanas que não eram mães, eram deficientes. As minorias cristãs ou curdas, protegidas e defendidas no início do seu mandato, tornavam-se cada vez mais isso mesmo, minorias.

 

Como vulgarmente designamos, a Turquia tornou-se como o feijão-frade, um país de duas caras. Por um lado, um país que se tenta aproximar do Ocidente e da União Europeia, mas que persegue os opositores ao regime. Um país de duas cidades, Istambul e Ancara, com rotinas completamente diferentes. A primeira, a maior cidade turca e mais “europeizada”, famosa como destino turístico; enquanto a segunda, capital e voltada para o mundo islâmico. Um país governado por um homem que afirma que leva uma vida “humilde e modesta” de acordo com os princípios muçulmanos, mas que tem uma fortuna avaliada em 165 milhões de euros, num país em que dois milhões de pessoas vivem com 3,60 euros por dia.

 

Por fim, sobra o povo turco, descontente, mas impotente perante um regime totalista e autoritário, que conseguiu sobreviver a um golpe de estado. Até quando irá Erdogan manter-se no poder? Será possível e ainda credível alguma tentativa de oposição ao atual governo turco? Até quando perdurará este feijão-frade turco, fraturando o país em duas frações e em duas caras? Finalmente, a Europa esteve mais preocupada em condenar um golpe de quatro horas, do que em condenar um golpe que já dura há 14 anos, com o regime totalista e autoritário turco.

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