Peter Nicholls/Reuters

Crónica

Austeridade + preconceito = Brexit?

O acumular de uma retórica nacionalista e xenófoba com uma Europa deprimida e com políticas sociais e monetárias totalmente destruidoras resulta numa população preparada e disponível para enfrentar as incertezas de um Reino Unido fora da UE

Texto de João Camargo • 17/06/2016 - 12:28

João Camargo
João Camargo, engenheiro do ambiente, bolseiro, activista dos Precários Inflexíveis

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Os próximos dias acumularão tensões no Reino Unido e na Europa. Em causa está a potencial saída do Reino Unido da União Europeia (UE). Já se vêem e lêem as profecias apocalípticas: o Brexit vai causa o despencar da economia britânica, da UE, do Euro, até da economia global! Há um ano era o Grexit, antes foram os "credit default swaps", as dívidas soberanas, enfim... Há sempre uma boa desculpa para justificar a contínua recessão, excepto a maneira como funcionam os mercados financeiros. Mas o assassinato de uma jovem deputada britânica pode ser decisivo.

 

Aparentemente, a pressão sobre os britânicos não está a surtir os efeitos desejados e, nas sondagens, a saída lidera mais consistentemente. Ficam lamentos, sentidos, de que a saída do Reino Unido da UE aumentará as tensões de segurança e poderá ser o início do desmantelamento da relativa paz que o projecto europeu traria no porta-bagagens e que, se nos esquecermos da ex-Jugoslávia, do Kosovo, da Ucrânia e das guerras promovidas em outros locais do planeta, legou um período de paz à Europa desde 1945.

 

Se o argumento da paz colhe, felizmente, muita simpatia, é importante não nos deixarmos iludir sobre a UE da qual aparentemente o Reino Unido quer sair: não é a UE de 1975 que o Reino Unido pôs a referendo e em que a adesão teve uma aceitação de 67%. A UE de 2016 é a da austeridade, do tratado orçamental, a UE que esmagou a democracia na Grécia e que pisou em cima de Portugal, Irlanda e Espanha, a UE que assinou com a Turquia um pacto de extradição violenta de refugiados de guerra e do clima, para manter longe da vista aqueles que mais ajuda precisam. É a UE do desemprego em massa e da precariedade como raticida para responder à doença anterior. É a UE que alimenta a ascensão da extrema-direita: da Aurora Dourada na Grécia, da Front Nationale em França, do AfD na Alemanha, do Partido da Liberdade na Áustria, do Jobbik e do Fidesz na Hungria. É a UE que alimenta o UKIP no próprio Reino Unido, que agora faz campanha pela saída. Alimenta-os com uma política anti-social, uma política desenhada por e para os interesses financeiros, procurando tirar orçamento e poder a todas as políticas sociais que mantiveram nas últimas décadas a Europa Ocidental em relativa paz e harmonia. Alimenta-os com políticas anti-imigração, anti-mobilidade, de xenofobia, por uma Europa fortaleza.

 

É irónico, claro, que a campanha pela saída seja liderada pelos conservadores, pelo ministro da Justiça, Michael Gove, pelo ex-mayor de Londres, Boris Johnson, e pelo xenófobo Nigel Farage, e que a tónica dada seja sobre a imigração, com a bandeira da invasão “bárbara” a ser acenada aos britânicos como consequência da presença na União Europeia. Isto especialmente depois do vergonhoso acordo migratório com a Turquia e depois de David Cameron, o primeiro-ministro pró-União Europeia, ter conseguido reduzir apoios a outros cidadãos estrangeiros no Reino Unido e o “travão de emergência” sobre entradas no país durante sete anos.

 

O acumular de uma retórica nacionalista e xenófoba com uma Europa deprimida e com políticas sociais e monetárias totalmente destruidoras (que levou, inclusivamente, muitos europeus continentais a partirem para o Reino Unido) resulta numa população preparada e disponível para enfrentar as incertezas de um Reino Unido fora da UE. A estagnação económica da União Europeia, com as exportações britânicas para a UE paradas e para o resto do mundo em subida, demonstra como uma parte da elite burguesa britânica acredita também no colapso a breve prazo da união.

 

É por isso que o campo que luta pela permanência na UE está em apuros. Liderado por David Cameron mas tendo o apoio da maior parte do Partido Conservador, dos Trabalhistas, dos Liberais Democratas e dos Independentistas escoceses, com apoio da maior parte dos economistas britânicos, de Barack Obama, de Angela Merkel e do presidente Xi Jinping da China, do Banco Central Europeu e do Banco de Inglaterra, o "ficar" é a representação de um "status quo" que está há anos a gritar “LOBO!” e cuja capacidade de amedrontar (e é isso novamente que faz aqui) é cada vez menor.

 

Mas a principal incapacidade do campo pela permanência é que a União Europeia não tem proposta de futuro para qualquer um dos seus Estados-Membros. Sem esperança ou motivação, é difícil conseguir mobilizar-se quem quer que seja. A União Europeia só tem para oferecer regras restritivas, democracia ultra-limitada, recessão económica, desrespeito pelos direitos humanos e depressão intelectual colectiva, na melhor das hipóteses. É por isso que a alternativa, mesmo que seja por maus motivos e baseada em preconceitos primitivos, tem um apelo tão forte.

 

O assassinato, ontem, da deputada trabalhista Jo Cox, pode introduzir um importante dado para este referendo: se se estabelecer uma ligação (real ou narrativa) entre o assassino e a campanha pelo Brexit, o factor emocional poderá desequilibrar tudo e furar todas as sondagens. Seria interessante então avaliar como a compaixão pela morte de uma jovem política progressista pode ter mais peso do que todas as ameaças dos mercados e das instituições internacionais. Qualquer que seja o resultado, o Brexit assinala a instabilidade máxima em que a União Europeia se encontra.

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