Alkis Konstantinidis/Reuters

Crónica

Quando um defensor do Brexit decide matar, em quem vais votar?

Neste momento, por termos os olhos negros e os cabelos negros, somos constantemente acusados de tirar o trabalho a quem o merece "por ordem divina", chamam-nos usurpadores e mandam-nos para casa (mesmo quando já não há casa)

Texto de João André Costa • 16/06/2016 - 18:40

João André Costa
João André criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

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Não nos deixemos enganar: no próximo dia 23, o Reino Unido pouco ou nada quererá saber da Europa porque não é a Europa, nem nunca foi a Europa, a verdadeira bandeira de todos quantos defendem a saída da União. Não, a verdadeira bandeira é só uma: imigração. A imigração, os emigrantes, os refugiados, os estrangeiros, os preguiçosos dos portugueses, espanhóis, italianos e gregos, sem esquecer os romenos, cujo único interesse é viver no Reino Unido "à pala do contribuinte" por meio de "subsidiozinhos" mais a mão sempre estendida, os refugiados que vêm para cá "trabalhar por tuta e meia e tirar os nossos empregos", mesmo sendo o Reino Unido quota parte responsável pela existência desses refugiados, os terroristas infiltrados e a sua ameaça à segurança interna, a reposição de fronteiras, muros, arame farpado e barreiras.

 

E o medo. E o medo é irmão da ignorância, andam os dois de mão dada e de mão dada dançam esta dança onde em cada britânico se fomenta hoje um racismo como antes não se tinha visto.

 

E sim, os britânicos sabiam muito bem o que Hitler andava a fazer, o "Mein Kampf" tinha sido publicado já não sei há quantos anos e a ideia de ter alguém que pusesse mão na Europa, e com o qual pudessem negociar directamente, não lhes era de todo desprovida de senso. Até ter chegado a sua vez e a guerra tocar-lhes à porta.

 

Por viverem numa ilha, desde que os romanos andavam por estas bandas que os britânicos se acham detentores de um estatuto especial. Não fazem parte da Europa e quando está nevoeiro na Mancha nem sequer a vêem. Porque os europeus, os continentais, são todos iguais, e os britânicos, antes de serem europeus, são isso mesmo, britânicos e, pelo andar da carroça, cada vez mais interessados no seu umbigo e pouco ou nada interessados no umbigo dos outros.

 

Assim, orgulhosamente sós, no próximo dia 23, os britânicos preparam-se para votar. Resta saber em quem: de um lado a Europa, do outro o racismo puro e duro contra todos quantos não são ingleses, galeses, escoceses, britânicos, nativos cheios de "oh dears" e "lovelys" para a frente e para trás. E isto apesar de dois terços dos alunos em Londres terem o inglês como segunda língua, 13% da população pertencer a minorias étnicas e 11% da população ser pertença de outros países que não o Reino Unido, 21 milhões de almas ao todo, mais coisa menos coisa, sendo Londres o caldo onde todas as culturas se encontram, para mau grado de todos os que votam a favor da saída do Reino Unido da Europa.

 

Sem esquecer Boris Johnson — ele próprio o ponta de lança desta causa —, descendente de turcos. Ora, perguntamo-nos, o que seria de Boris Johnson se há 100 anos os britânicos de gema se tivessem lembrado de deixar o seu bisavô turco especado de fome às portas do reino de Sua Majestade? O que seria do Boris hoje se, à data, tivessem dito ao bisavô para voltar para a sua terra e morrer longe? Não sei porquê mas, entre nascer e ir para Eton, nada disto teria acontecido ao nosso amigo Boris. E por isso esta incompreensão.

 

E por isso esta incredulidade. Num país cujo antigo império colonial criou raízes um pouco por todo o mundo, como é que de repente se desencadeia um ataque contra tudo o que não é britânico, numa espécie de auto-negação de um povo onde quase metade da população se prepara para ser posta de parte precisamente por não ser branca, loira, alta e de olhos azuis, ao melhor estilo ariano cujo revivalismo se prepara para constituir um dos maiores retrocessos civilizacionais da história moderna?

 

Neste momento, por sermos imigrantes numa terra estranha, vivemos um ataque diário à nossa dignidade, à nossa integridade, nos jornais, nas televisões, na rua, no local de trabalho. Neste momento, por termos os olhos negros e os cabelos negros, somos constantemente acusados de tirar o trabalho a quem o merece "por ordem divina", chamam-nos usurpadores e mandam-nos para casa (mesmo quando já não há casa).

 

Cabe-nos, no dia 23, pôr termo ao ostracismo. Ou, caso contrário, esperar mais do mesmo num dia cujo fim se prolongará por tantos anos quantos forem precisos para correr com todos os que nunca pediram para vir para cá, mas vieram, à procura de uma vida melhor. Sem "subsidiozinhos". "Oh dear"...

 

P.S.: São agora 17h00 do dia 16 de Junho de 2016. Em Birstall, Leeds, a deputada trabalhista Jo Cox, defensora da permanência do Reino Unido na União Europeia, foi alvejada duas vezes por um homem enquanto este gritava "Reino Unido primeiro!". A deputada faleceu pouco depois. E assim se vê o rosto do medo pintado de sangue. Vem-me à memória Emily Davison, cuja vida perdida foi um ponto de viragem para o sufrágio feminino. Emily não pediu para morrer. Jo Cox também não. E sim, mal posso esperar pelas teorias da conspiração mais o Rui Sinel de Cordes a dizer que ela estava mesmo a pedi-las, até porque de gente estúpida está o mundo cheio.

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