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Nelson Nunes

Nelson é escritor disfarçado de jornalista armado em investigador

O excerto

Por agora está tudo tranquilo: aparentemente, o homem andou metido em maroscas das grandes, e portanto estamos todos surpreendidos e satisfeitos com a actuação da Justiça (o que, diria eu, é quase inédito na História da democracia portuguesa). Mas agora imagine-se este cenário: o ex-primeiro ministro, afinal, vai-se a ver, foi metido num cambalacho para prejudicar directamente o partido da oposição, que até já anda moribundo há uma carrada de tempo, e os homens do governo arrecadam o título de campeões nacionais para mais quatro anos de bolas enfiadas nas redes do povo.

Francisco Leong/AFP

Crónica

Sócrates: e se ele for inocente?

A presunção da inocência é já um cliché nos media nacionais. Mas, agora, quem a usa está destinado ao apedrejamento público

Texto de Nelson Nunes • 27/11/2014 - 12:03

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Aviso: este artigo não é sobre o Sócrates. É sobre nós. É sobre nós, jornalistas, é sobre nós enquanto público ávido de mais e mais notícias e, acima de tudo, é sobre nós enquanto gente.

 

Não se fala noutra coisa. Sócrates para aqui, Sócrates para ali. Não deixa de ser espantosa a forma como, ao fim de três anos sem o ter num Governo, e ao cabo de quase dez anos de escrutínio, se encontrou uma maneira de o atirar para o xilindró. E não deixa de ser espantoso o impacto que o indivíduo continua a ter no panorama mediático. Goste-se ou não da pessoa, estamos perante um animal (político e não só) gigantesco, talvez o maior desde 74. Suspiramos de alívio e sentimos o doce sabor da esperança, que afinal o sistema até funciona e seremos sempre capazes de julgar os adeptos da falcatrua. Ainda assim, há comportamentos sobre os quais precisamos de reflectir.

 

A presunção da inocência é já um cliché nos media nacionais. Mas, agora, quem a usa está destinado ao apedrejamento público. O presente artigo não será excepção: aposto um almoço em como haverá gente a dizer que o autor deste texto é um socrático encapotado ou que é um joguete às mãos da máquina socialista. Não sou, garanto-vos. Não deixa, contudo, de ser interessante ouvir dizer que houve explosões de emoção em redacções após o anúncio da detenção do trafulha, ao mesmo tempo que as redes sociais rebentaram numa euforia incontida por um inimigo de há muito.

 

A crença acima de tudo

Todo este caso me faz crer que somos seres profundamente religiosos. Colocamos a crença acima de tudo, fazendo com que seja ela a conferir-nos explicações para qualquer coisa que se nos coloque defronte dos olhos. Os factos pouco importam, assim parece. Acreditamos no que nos convém, em especial se não tivermos forma de o provar. Por agora está tudo tranquilo: aparentemente, o homem andou metido em maroscas das grandes, e portanto estamos todos surpreendidos e satisfeitos com a actuação da Justiça (o que, diria eu, é quase inédito na História da democracia portuguesa).

 

Mas agora imagine-se este cenário: o ex-primeiro ministro, afinal, vai-se a ver, foi metido num cambalacho para prejudicar directamente o partido da oposição, que até já anda moribundo há uma carrada de tempo, e os homens do Governo arrecadam o título de campeões nacionais para mais quatro anos de bolas enfiadas nas redes do povo. Imagine-se só isto como verdade, por um instante. Que atitude seria a nossa? Não sou particular adepto das artes divinatórias, muito menos do tarot, mas creio eu depressa se levantariam as vozes populares: aquilo foi tudo um esquema dos amigos do Sócrates para o safar das tramóias que andou a fazer à gente, estes políticos safam-se sempre e, afinal de contas, a Justiça não vale nada. Esta dualidade de critérios é, no mínimo, assustadora.

 

Nunca tive nada contra o tipo e também nunca tive grande coisa a favor. Hoje, estou um bocadinho contente porque a Justiça mostra, pelo menos, não ter medo dos poderosos. Mas a satisfação fica por aí. As pulsões cardíacas não podem sobrepor-se aos valores morais. Prove-se a culpa e batam-se palmas. Prove-se a inocência e confie-se na Justiça. Com a mesma consciência tranquila, sem as dualidades popularuchas. No meio desta tempestade de Sócrates, Sócrates, Sócrates, sobra a pergunta: o real é o que vemos ou, afinal, o que tanto queremos ver?

Eu acho que
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