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Tiago Matos Silva é antropólogo, doutorando e investigador

Tiago Matos Silva é antropólogo, doutorando e investigador

O excerto

Um antigo primeiro-ministro tratado com a mesma severidade com que o estado trataria qualquer outro suspeito, sem ligar às ondas de choque políticas que tal severidade possa causar, a mim e à malta lá no meu café, parece-nos uma coisa nova e moderna, de democracia do norte da Europa, de república a sério (e sem bananas), dum estado que vê no assumir do problema um caminho para a cura.

Enric Vives-Rubio

Crónica

Sonsos

Se calhar sou só eu e a malta cá no meu café, mas o caso grave não nos parece que seja um ex-primeiro-ministro ser detido mas sim ser possível dizer-se, em 2014 e num regime supostamente democrático, que salvo por “crime de sangue em flagrante delito” não é aceitável deter um antigo primeiro-ministro

Texto de Tiago Matos Silva • 24/11/2014 - 17:45

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E apanharam o Joselito (ainda a assobiar uma musiquinha da Piaf) na manga do avião, com um ror de moscambilhas numa mão e um telefone para avisar as redacções na outra. Agarraram o sr. engenheiro, espetaram-no num “carro descaracterizado” e ala para a esquadra que se faz tarde. O frémito foi imediato, às 2h00 o Costa da SIC (mano do Costa do PS) tentava alinhar a análise em directo, despenteado e sem maquilhagem, atónito com o insólito dum ex-primeiro-ministro dentro por suspeita de receber luvas.

 

E esta semana que ia ser tão sossegada... tínhamos os vistos dourados para mastigar, que a “sabotagem” do Citius já foi e já ninguém se lembra, sábado tínhamos o Bloco em decomposição e domingo a entronização do secretário-geral, ia ser um fim-de-semana de sossego, quentinho e sem directos à chuva... a Câmara de Lisboa até tapou o buraco da Rotunda do Relógio em menos de 24 horas! E depois o Carlos Alexandre atira-nos com esta batata quente, esta granada descavilhada, para o colo.

 

E com o calafrio espinha abaixo das elites explode a sonsice. O Costa distancia-se, à esquerda e à direita afivelam-se ares sérios e assegura-se a “absoluta confiança na justiça”, a “total crença na separação dos poderes”; tirando o Soares júnior e os nazis do PNR ninguém dá "show" para as objectivas e microfones, em frente às câmaras só falta fingirem-se admirados por passar pela cabeça de alguém que o José de Sousa estivesse metido em negociatas.

 

Presunção de inocência

Os tartufos do comentário ficam à rasca (tirando o Marques Mendes que ainda está a suspirar de alívio), mas a tia Constança dá-lhes o mote na TVI: isto é um caso muito grave que pode abalar a confiança nas instituições; e pimba ó para eles todos a repetir a canção que nem um grupo coral bem ensaiado. Duma ponta à outra da mesa do Eixo do Mal e em tudo o que é “especial informação” são só preocupações jurídicas com a presunção de inocência, com o “habeas corpus” da alegada malandragem, com o sacrossanto segredo de justiça... as lágrimas quase que se me afloram aos cantos dos olhos com tanto e súbito carinho pela integridade do processo criminal.

 

Se calhar sou só eu e a malta cá no meu café, mas o caso grave não nos parece que seja um ex-primeiro-ministro ser detido (como “só aconteceu na Ucrânia e em Itália” plangem as vozinhas na televisão) mas sim ser possível dizer-se, em 2014 e num regime supostamente democrático que salvo por “crime de sangue em flagrante delito” não é aceitável deter um antigo primeiro-ministro.

 

Um antigo primeiro-ministro tratado com a mesma severidade com que o estado trataria qualquer outro suspeito, sem ligar às ondas de choque políticas que tal severidade possa causar, a mim e à malta lá no meu café, parece-nos uma coisa nova e moderna, de democracia do norte da Europa, de república a sério (e sem bananas), dum estado que vê no assumir do problema um caminho para a cura. Se calhar somos só nós, mas este pequeno sobressalto histórico, mais do que qualquer outra coisa nos últimos 30 anos, só nos consolidou a confiança nas instituições. 

Eu acho que
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