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Crónica

O fim da “Dica”

Não havia nada que me relaxasse mais do que a "Dica da Semana". Era como se o mundo parasse, como se nada mais interessasse para além do supérfluo e da vacuidade desta meia dúzia de páginas sem compromisso

Texto de João André Costa • 20/11/2017 - 12:15

João André Costa
João André criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

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Todas as semanas, sentado nos degraus da escada à porta de casa enquanto o sol aquece a pele e os pássaros enchem o dia, aguardava ansiosamente a chegada do rapaz com as "Dicas" debaixo do braço ou às costas. Já nos conhecíamos, pelo que a caixa de correio já não era precisa, Bom dia, Bom dia, respondia ele, Obrigado e bom dia, dizia eu em despedida com um sorriso na cara e este troféu nas mãos: a Dica da Semana!

 

A Dica da Semana, para quem ainda não sabe, acabou. Financiada por uma cadeia de supermercados, foi agora publicada a última edição do semanário com maior tiragem de Portugal, nada mais nada menos do que dois milhões de exemplares em onze edições, carinhosamente organizadas de acordo com a região e o paladar do freguês, a alheira para Mirandela, o pão de rala para o Alentejo.

 

Não havia nada que me relaxasse mais do que a Dica da Semana. Era como se o mundo parasse, como se nada mais interessasse para além do supérfluo e da vacuidade desta meia dúzia de páginas sem compromisso. Assim, chegam ao fim aquelas tardes sem termo na casa-de-banho onde mais nada havia de importante para além de saber que a Clara de Sousa tem uma voz meiga, a Cuca Roseta não tem medo de arriscar, o Raminhos é só parvo e a Catarina Furtado não é perfeita (coitada), ao mesmo tempo que me actualizava com os preços da pá de porco e dos croquetes para cão entre palavras cruzadas, sudokus e informações sobre a diabetes gravídica e os signos.

 

Dica da Semana é de borla. Perdão, a Dica era de borla, todas as semanas oferecendo um pouco de calor, um pouco de entretenimento, um pouco de amizade a troco de nada, e muita publicidade para quem quisesse. Publicidade à parte, o que eu queria mesmo era a Dica e a certeza deste Natal todas as semanas na caixa do correio.

 

Agora, se quisermos relaxar por cinco minutos que seja, sem querer saber do mundo ao redor e lá fora, vai ser preciso pagar. Obviamente, não vamos pagar, antes pelo contrário, e de caminho sei muito bem como uma certa cadeia de supermercados vai perder clientela.

 

A Dica já era parte do nosso património cultural. A Dica era a prova de que todas as semanas havia algo por que esperar. Sem a Dica somos todos, agora e para sempre, um pouco mais pobres. Nós, o meu amigo distribuidor depois de perder o emprego, e todos quantos trabalhavam em prol da publicação deste semanário.

 

Resta-me ler e reler a pilha de “Dicas” religiosamente guardadas entre o piaçaba e o bidé. De qualquer maneira, é como se nunca as tivesse lido e só me consigo lembrar da pá de porco. Vocês não estão com fome? Eu estou. Acho que vou às compras.

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