Eles arriscam a vida por uma missão: fotografar

autoria Ana Marques Maia

// data 17/05/2017 - 11:02

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Cristina Veit foi, durante 12 anos, directora de arte e editora de fotografia da revista National Geographic Brasil. "A fotografia de guerra nunca me atraiu como tema", confessou ao P3; sempre preferiu a vida selvagem, a ciência, a arqueologia, a conservação. No final de 2016, no entanto, surgiu-lhe a oportunidade de acompanhar dois fotógrafos freelancer brasileiros a Mosul, no Iraque. A missão desses fotógrafos era documentar a guerra contra o Estado Islâmico que decorre na cidade desde Agosto de 2014. "São dezenas, se não centenas de fotógrafos do mundo todo que têm documentado a guerra", explica. "A diversidade de profissionais que conheci durante essas semanas iniciais — sobretudo as diferenças de enfoque que cada um apresentava do mesmo conflito — interessou-me. Cobrindo o conflito você encontra fotojornalistas freelancer, fotógrafos contratados por agências e grandes empresas de média, fotógrafos veteranos, jovens fotógrafos tendo sua primeira experiência numa zona de conflito, e até mesmo fotógrafos de arte pesquisando projetos conceituais." Cristina Veit acabou por passar dois meses e meio em Mosul. "Foi assim que surgiu o projeto 'Retratos de Fotógrafos - a Batalha por Mosul'", que apresenta agora ao P3. "Mostrar o que os impulsiona, quais são as histórias que eles estão tentando contar, os riscos que estão tomando e como cada um deles dá sua própria voz a uma narrativa contada por tantos" é o objectivo da editora de fotografia e agora também fotógrafa. As diferenças de abordagem e percepção de cada um dos fotógrafos que conheceu surpreenderam-na. "No dia 24 de Dezembro de 2016 eu desembarquei em Erbil, no Curdistão. Passei a véspera de natal com uma familia de deslocados internos cristãos em uma reportagem para um canal de TV brasileiro. No dia seguinte fomos documentar a primeira missa de Natal na cidade recém liberada de Qaraqosh, depois de dois anos sob domínio do Estado Islâmico. Fomos os primeiros a chegar, mas de repente fotógrafos de varias nacionalidades foram aparecendo. Todos fazendo a mesma foto dentro da igreja, generais assistindo a missa, soldados acendendo velas, a destruição da igreja, pixada, livros jogados, forro caindo… Até então parecia que todos estavam fazendo a mesma cobertura da guerra. Até que conheci o fotografo alemão Robin Hinsch. Robin não era um fotojornalista, e sim um artista. Como todos os outros que havia conhecido até então, queria registrar a destruição do ISIS em cidades como Qayyarah, Qaraqosh, Bartallgag e também queria ir para a linha da frente na parte leste de Mosul. Mas Robin tinha um objectivo muito específico em Mosul - ele buscava registar carros bomba que não tinham sido detonados para um projeto fotográfico. Fiquei muito interessada na criatividade do seu enfoque da guerra e no facto de fotografar conflito com um perspectiva artística e não jornalística." A experiência no terreno é positiva e Cristina tem o plano de visitar novas zonas de conflito e ampliar o projecto. "Considero esse projeto uma extensão dos meus anos na National, trabalhando com fotógrafos que atuavam cada um em áreas muito específicas e cada um com uma maneira muito pessoal de abordar e registrar o tema escolhido. Não fui para o Iraque com a intenção de fazer este ensaio, especificamente, mas ele foi acontecendo quase naturalmente, à medida em que esses fotógrafos se iam cruzando no meu caminho. Da mesma maneira que eu me surpreendi conhecendo essas pessoas e o trabalho delas, quem vê o projeto também se surpreende em conhecer um pouco sobre a cobertura de conflitos."

Eu acho que