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Crónica

Jornalistas, o mundo chama-nos loucos

O filho que diz à mãe "Quero ser jornalista" pode estar a dar-lhe o maior desgosto ou a maior alegria da sua vida

Texto de Rita Neves Costa • 13/01/2017 - 17:44

Rita Neves Costa
Rita é estudante de mestrado em Jornalismo na Universidade Nova de Lisboa e sub-editora no JornalismoPortoNet (JPN)

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Quando se entra na faculdade, o desejo de concretizar sonhos fala sempre mais alto. Pensa-se que se pode mudar o mundo. A visão, essa, tende a ser distorcida pelo romance dos filmes e livros. E os problemas enfrentados são apenas mais um desafio na longa viagem da carreira profissional. Até domingo, 15 de Janeiro, o Congresso dos Jornalistas Portugueses reúne-se para discutir várias questões. Todas elas tão importantes, tão necessárias e, ainda assim, tão insuficientes face a todo o tipo de situações e maleitas existentes na profissão.

 

Todos os anos, milhares de jovens deixam as ciências, as economias e as matemáticas e iniciam o percurso académico na área da comunicação. Sorte a deles e azar dos outros, digo. À parte dos grandes problemas actuais (precariedade, notícias falsas, falta de credibilidade), a essência do jornalismo é fantástica. Muitos não sabem o que perdem. As lendas da profissão saberão dizê-lo melhor do que ninguém. Os repórteres, que zarpam de um lado para o outro, numa correria frenética, saberão dizer o quanto os apaixona sair em reportagem, terminar uma entrevista e pensar: “Caramba, tenho história aqui!”.

 

Vocês sabem quem são. São os que fazem um sorriso parvo e enternecido quando vêem uma história à frente dos vossos olhos. Seja perante uma resma de papéis ou perante a face de um governante ou de um feirante. Não há escalões sociais que fiquem isentos da vossa felicidade. É um conforto generalizado e indicador de que fizeram o vosso trabalho. Esperam apenas que o leitor veja o vosso esforço e dedicação. Vamos torcer que sim.

 

Os garotos da faculdade saberão, um dia, com a força dos sonhos, aprender que o lado muito bom das coisas está sempre acompanhado de um lado mau. E o jornalismo não é excepção. Não é um conto de fadas, nem um pesadelo. É um equilíbrio e um perfeito aliado na formação do carácter. É uma lição estudada, gravada e inscrita na pedra. Exige-se muito jornalismo e ele continua a exigir muito dos jornalistas. Num dia, é o melhor amigo; no outro, o inimigo malvado. A maior força do jornalismo são as histórias. As histórias fortes e poderosas, que não deixam dormir: gravadas na memória, como se pudessem ser recapituladas passo a passo e minuto a minuto. E nós, inocentes criaturas, caímos sempre na esparrela.

 

Jornalistas, o mundo chama-nos loucos. E nunca foram necessários tantos loucos no jornalismo. Os capazes de criticá-lo e amá-lo suficientemente para poder colocar um travão às centenas de situações que o desmoralizam, envelhecem e destroem. A altura é a ideal para os sonhadores, são eles que movem o mundo. O jornalismo precisa deles, com a cautela e a argúcia necessária para que este congresso seja bem-sucedido e também mais recorrente nas nossas vidas. Discute-se nas redacções, discute-se em público.

 

O filho que diz à mãe "Quero ser jornalista" pode estar a dar-lhe o maior desgosto ou a maior alegria da sua vida. Há apenas um lembrete. Fugir do conselho sensato matriarcal de não fazer perguntas incómodas. Nesse aspecto, as mães estão erradas. Muito erradas.

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