A rapariga espadaúda

autoria Adriano Miranda

// data 13/01/2017 - 14:21

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As imperiais já bailavam no balcão do Tico-Tico quando conhecemos quatro raparigas. Metemos conversa e as perguntas de quem apalpa terreno surgiram naturalmente. Apresentações e balelas, e depois, como era da praxe, o que estudávamos. Direito, Economia, Engenharia e eu, uma espécie fora do baralho, Fotografia. Com cara de espanto uma rapariga espadaúda, soltou uma frase mortal. "Fotografia? Isso aprende-se?!" Uma gargalhada geral invadiu a simpática cervejaria. Ainda hoje não sei, se por acharem a rapariga estúpida ou acharem que o estúpido era eu. O que é certo, é que aquela frase assassina faz-me companhia há uns trinta e tal anos.

 

A vida não tem sido madrasta para mim. Primeiro, tive a sorte de as hormonas não terem fervilhado pela rapariga espadaúda. Depois estudei na melhor escola de Fotografia do país. Depois inverti os papéis e onde aprendia comecei a ensinar, tornei-me professor. Depois, veio o Público, a Carteira Profissional, o Código Deontológico, a ética, as regras editoriais, o profissionalismo, o ser jornalista. Aprendi rápido porque o Público era a melhor escola do país. E não sei como se explica, mas ter sido do Público ou ser do Público é algo carnal, é algo que entranha. Nunca mais nos livramos.

 

Sinto que o amor de uma vida, no meu caso fazer jornalismo com uma máquina fotográfica, está à beira dos finados. Acredito já muito pouco no romantismo do jornalismo fotográfico. Não porque ele não seja apaixonante e interessante como forma de comunicar, mas porque foi destruído pela irritante mania de que todos “tiram fotografias” o que é muito diferente de “saber fotografar”. O mundo mudou, dizem alguns.

 

Está na moda. Quando não temos solução ou justificação para um problema o chavão é recorrente - o mundo mudou – como se o mundo não mudasse constantemente pelo menos desde que o Homem descobriu a roda. No jornalismo a moda também já chegou e há quem diga que o mundo mudou.

 

Ou porque dá jeito ou porque não encontra a solução. Temos precários? O mundo mudou. Temos falta de ética? O mundo mudou. Temos salários miseráveis? O mundo mudou. Temos despedimentos? O mundo mudou. Temos promiscuidades com o poder político e económico? O mundo mudou. Temos falta de massa crítica? O mundo mudou. Aquela frase assassina persegue-me. Agora está mais presente e acutilante. Sinto-me como um velho guerreiro. Apaixonado com a sua arma. Fui desafiador a cada disparo. Provocador. Acreditei na força da denúncia. Dei voz a quem permanecia segregado. Agora tudo parece lentamente desvanecer. Cansado vou indo porque o mundo retrocedeu. Não devia ser assim, mas é.

 

Há tantas raparigas espadaúdas por aí.

Eu acho que