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Crónica

“Big Data” e a relativização da verdade

O excesso de informação levou a relativizar Trump. Isto inaugura um novo paradigma para o futuro, o mais perigoso que vivemos: o excesso de dados relativiza o peso da verdade. E isso só pode nos preocupar a todos

Texto de João Leite Alves • 18/11/2016 - 12:40

João Leite Alves
João Leite Alves é consultor em tecnologias de informação e reside em Lisboa

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Há um adágio popular que quem não gosta de números utiliza sempre para relativizar o seu poder de representação da realidade: diz esse adágio que se um gordo e um magro forem à churrasqueira comprar um frango assado e o gordo o comer todo, deixando o magro à míngua, a matemática representa como meio frango a média de víveres consumidos por aquele par de amigos. Para estas pessoas, a informação tida e retida sobre um determinado tema é muito pouco relevante para a verdade factual.

 

No extremo oposto temos as pessoas, como o nosso antigo Presidente da República, que consideram a informação como a única representante digna da verdade factual, tendo Cavaco Silva até afirmado que duas pessoas com a mesma informação tendem a concordar sobre os factos e as soluções para os problemas eventualmente indicados pelos mesmos.

 

Como em quase todas as coisas da vida, o bom senso indica-nos que “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”, ou seja nem só a matemática nos dá a verdade nem a aversão completa à informação recolhida nos traz uma percepção melhor da realidade sentida.

 

Isto é tão ou mais importante na revolução digital que vivemos: todos nós (e sobretudo tu, caro leitor, que estás a ler isto como um artigo de jornal que nunca verá a sua letra impressa) somos invadidos voluntária e involuntariamente por informação. Basta qualquer um olhar para o seu "black mirror" mais próximo (tv, "tablet", telemóvel, portátil) que lhe salta um conjunto de notificações, sobretudo informação. Se o teu amigo/a está triste e precisa de um conselho, se amanhã chove, se o Benfica marcou um golo ou se há uma notícia de última hora como aquela com que todos acordámos no dia 9 de Novembro último: uma figura como Donald J. Trump foi eleita líder do mundo livre, da aliança atlântica e Presidente dos EUA (por ordem de importância para o português médio).

 

E o que é que isso significa numa era onde todos somos agentes de algoritmos de "Big Data" (seja quando iniciamos sessão no Facebook, vamos ao médico ou fazemos uma compra no eBay)? E o que significa isso de ser elemento de análise por algoritmos de "Big Data"? Significa que, se compramos um livro de história da arte, a Amazon nos vai apresentar, na visita seguinte, livros que têm em comum já terem sido comprados por quem também comprou esse livro. Ou seja, somos catalogados. E é-nos indicado um caminho que limita as nossas opções. Que nos torna menos livres na exacta medida em que condiciona as nossas opções. Que avisa o centro de saúde onde vamos que, quando marcamos a consulta, somos um paciente em risco de não aparecer porque há seis meses não viemos à consulta de rotina. Que nos propõe pessoas para fazermos amizade virtual só porque estas têm os mesmos gostos ou amigos em comum. Que por detrás de um nome está um gordo, porque viu umas calças XL no site de uma qualquer marca de roupa.

 

É da natureza humana filtrar o que consumimos, quando temos excesso de oferta para a nossa capacidade de procura. E, nos dias de hoje, a informação é um maná tão grande que nos entra pelos olhos adentro que o nosso cérebro já não consegue consumir tudo. Em certa medida diz: “estou cheio”. Ou, perante dez alertas sobre um determinado tema, liga aos primeiros dois e aos outros oito responde: “já estou farto deste assunto.”

 

Ou seja, a longo prazo relativiza tudo. De outra forma, como é possível que 61 milhões de pessoas tenham ignorado a informação que lhes chegou sobre Trump? Sobre a sua misoginia, o seu racismo, as suas múltiplas falências ou a sua ausência de aguentar um raciocínio por mais do que cinco minutos consecutivos? Sobre a tendência assumida para cometer crimes sexuais? Porque, a alguns, o cérebro disse: “já chega”. Eu, deste senhor, só retive o sucesso empresarial e a simples mensagem de “Make America great again”. Um "snippet". Um bocadinho de informação que é muito mais cerebralmente digerível do que as implicações do Japão possuir, ou não, armas nucleares.

 

Ou seja, o excesso de informação levou a relativizar Trump. Isto inaugura um novo paradigma para o futuro, o mais perigoso que vivemos: o excesso de dados relativiza o peso da verdade. E isso só pode nos preocupar a todos.

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