Comunicação

São “Chicas Poderosas”, querem mudar-nos o ”chip” e é para ontem

Passou por mais de dez países da América Latina e vai estrear-se na Europa, em Lisboa, já em Outubro. Chicas Poderosas, o projecto concebido pela designer portuguesa Mariana Santos, dá workshops gratuitos na área de comunicação e tenta mudar mentalidades. É para mulheres — mas não só

Texto de Mariana Correia Pinto • 18/09/2016 - 21:47

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Era uma entre apenas três mulheres numa equipa com 180 homens — e essa balança de género inclinada incomodou Mariana Santos desde o primeiro dia. No departamento de tecnologia do jornal "The Guardian", onde chegou em 2010 para produzir conteúdos interactivos, a designer algarvia começou a questionar-se. Porque havia tão poucas mulheres no mundo da tecnologia? E por que razão a presença feminina em cargos de chefia era tão baixa nos meios de comunicação social? Quando aterrou na América Latina com uma bolsa do International Center for Journalists (ICFJ), Mariana levava essa equação desequilibrada na mente e viu ali uma oportunidade. “Chicas Poderosas”, o projecto criado em 2013 do outro lado do planeta e a dias de chegar a Portugal, quer ser “o empurrão” que falta para essa mudança de “chip”. “Há um monte de miúdas — e eu incluo-me aí — que precisam que lhes digam que elas podem fazer o que querem. Dizer-lhes: ‘sim, tu podes’, ‘sim, é possível’”.

 

Pontos nos is: este projecto não é uma ode ao feminismo — e não há portas fechadas a géneros. Portanto, quem diz “chicas” pode perfeitamente dizer “chicos”. Palavra de Catarina Marques Rodrigues, jornalista do "Observador" que por estes dias, com uma equipa de cerca de uma dezena de profissionais de várias áreas (mulheres e homens), está a dar forma ao evento em Portugal: “Isto não é uma coisa de feministas aguerridas que querem bater o pé. A questão é que, por princípio, as mulheres têm mais dificuldade em chegar a posições de destaque, a pedir um aumento de ordenado, a valorizar-se.” De 5 a 8 de Outubro, num evento gratuito na Casa das Histórias — Paula Rego, em Cascais, vai falar-se de comunicação em busca dessa mudança que já vem tarde. Com oradores nacionais e internacionais, informações práticas e teóricas, debates e as novas tendências tecnológicas usadas nos media (já levantamos mais o véu).

 

Mudemos novamente de continente. Ao chegar à América Latina, Mariana Santos percebeu que a desagradável realidade testemunhada em Londres era um mal menor quando comparada com aquele lado do mundo. Lá, “os cargos de chefia eram todos ocupados por homens”, contou ao P3 numa entrevista feita via Skype durante uma viagem de autocarro no Rio de Janeiro, onde Mariana Santos estava a fazer trabalho voluntário para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Com “workshops” realizados em mais de dez países, a designer e uma equipa saída da sua rede de contactos formaram, em três anos, mais de 2500 pessoas.

 

Para dar continuidade ao projecto, Mariana — que começou por estudar escultura e passou ainda por design de equipamento antes de se decidir pelo curso de design de comunicação — deu ainda uso a outra bolsa. Com a John S. Knight Journalism Fellowship, em Stanford, começou a idealizar a forma de transformar o “Chicas Poderosas” em algo que fosse para além dela. “Como dar ferramentas e ‘empoderar’ mulheres, por toda a América Latina, fazendo com que elas possam ser líderes das comunidades dos seus países”, explicou. Desta forma, com a sua supervisão e orientação, eventos começaram a ser realizados em várias cidades e países, muitas vezes em simultâneo.

 

Algo mudou no “chip”. A viver e trabalhar em Buenos Aires, a jornalista costa-riquenha Gaby Brenes passou a usar a realidade virtual e filmes 360 depois da formação feita no “Chicas Poderosas” — e ela própria se transformou numa “chica” a espalhar conhecimento. Com uma reportagem feita durante a campanha presidencial, foi nomeada para um prémio da Online News Association — sendo o único projecto latino americano entre os selecionados.

 

Na Colômbia, dois grupos de mulheres formadas no projecto de Mariana organizaram-se para ir a regiões remotas do país onde os indígenas estavam a ser esquecidos. Lugares onde, por carências alimentares e falta de água, morria gente. Crianças, sobretudo. Se os jornalistas não podem mostrar esta realidade — por estarem longe, por não terem capacidade financeira para deslocações frequentes, por a comunicação ser mais difícil —, o que poderiam, então, fazer? “Foram até lá, falaram com eles, perceberam os problemas. Depois, deram-lhes formação sobre a utilização de ferramentas digitais, como telemóveis, para que eles próprios contassem as suas histórias”, relata, orgulhosa, Mariana Santos.

 

Doze anos depois, regressar a “casa”

O sonho a concretizar-se ganha o efeito bola de neve. No "The Guardian", Mariana Santos teve a sorte de uma vida: encontrar um mentor. Um “verdadeiro mentor”, diz: “Aquele que não só faz de nós melhores profissionais como melhores pessoas”. Sem Alastair Dant, a portuguesa de 33 anos “não teria evoluído da mesma forma”. Talvez não tivesse regressado há dias a “casa”, depois de 12 anos emigrada, para abrir a Unicorn Interactive, a sua empresa de conteúdos que pretende funcionar como uma agência e trabalhar para todo o mundo a partir de Lisboa. Talvez a ideia do “Chicas Poderosas” — onde Mariana veste a roupa de mentora — não fizesse tanto sentido.

 

Depois da América Latina, a portuguesa vai expandir o projecto à Europa — fazendo de Lisboa a porta de entrada, e com passagens por Berlim e Londres confirmadas — e já planeia transformar esta espécie de escola num site de conteúdos. Portugal é um “mundo diferente”, diz, mas reconhece que, também por cá “ainda se sente uma liderança muito masculina”. Há caminho a percorrer. Catarina Marques Rodrigues não podia estar mais alinhada com a ideia. Particularmente atenta a temas ligados a direitos humanos, a jornalista encontrou “Chicas Poderosas” durante uma pesquisa para o seu programa ADN, ligado exactamente a questões de igualdade e direitos. Quando soube que Mariana queria levar o evento a Lisboa, pareceu-lhe excelente. “Não temos os mesmos problemas de países como o México, a Argentina ou outros. Mas temos problemas.”

 

O diagnóstico é simples: nos cargos de direcção, ainda reinam os homens. E isso, acredita Catarina, faz toda a diferença: “Não é haver mulheres [nas chefias] só porque sim, é porque experiências diferentes, pessoas diferentes, outras vivências, fazem com que o jornal ganhe.” Crente no poder “contagioso” do conhecimento, a jornalista vê neste projecto uma ferramenta de combate: “Se ensinarmos uma mulher, que ensina outra mulher e depois outra... às tantas criámos uma comunidade de pessoas com ferramentas. Depois, é só deixá-las voar.”

 

Em Cascais, durante quatro dias, prometem-se asas. Os organizadores estão ainda a fechar nomes, nacionais e internacionais, mas abrem um pouco a cortina. Pela Casa das Histórias — Paula Rego — cuja sala tem uma lotação de cerca de cem pessoas (vejam isto como uma dica: as inscrições estão abertas a partir desta segunda-feira) — vão passar Diogo Queiroz de Andrade, da futura direcção do "PÚBLICO", para falar do uso de tecnologia nos media; Paula Cordeiro, provedora do ouvinte da "RTP", considerada uma das mulheres mais importantes dos media pelo site britânico "Journalism.co.uk", para partilhar o seu conhecimento sobre "podcasts"; e Kim Sawyer, embaixatriz dos EUA em Portugal e criadora do projecto Connect to Success, que dará conselhos práticos aos presentes. “Como pedir um aumento de ordenado, criar a própria empresa, colmatar determinadas falhas de auto-estima ou ser assertiva”, exemplifica Catarina. Tudo, dizem as “chicas”, em busca de um novo equilíbrio para a balança da comunicação.

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