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Crónica

E se a loucura deixasse de ser notícia?

A cobertura de um acontecimento não pode mascarar a realidade, muito pelo contrário. A verdade é preciosa. Mas será que estamos a avançar no caminho certo?

Texto de Mário Barros • 27/07/2016 - 12:59

Mário Barros é assessor de comunicação na CCCP – Companhia de Comunicação e Consultadoria do Porto

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É claro que não é possível deixar de noticiar a loucura no mundo. É claro que os jornalistas têm como missão relatar a verdade, seja ela qual for. É claro que o primeiro compromisso dos jornalistas é para com todos nós, os destinatários da informação. E todos nós queremos (ou devíamos desejar) saber a verdade, por mais repugnante e incómoda que seja. O mais certo é que, infelizmente, haja mais ataques como os que aconteceram recentemente em França, na Alemanha ou no Japão, levados a cabo por alucinados. E é bem provável que o terrorismo e os actos a ele associados sirvam de capa para barbaridades que nada têm a ver com essa pretensa “guerra santa” – uma barbaridade, deixe-se aqui sublinhado. Por isso, vai ser inevitável que nos próximos tempos tenha de ser feita uma discussão séria e sem preconceitos acerca do papel do jornalismo nestes tempos de cólera.

 

A cobertura de um acontecimento não pode mascarar a realidade, muito pelo contrário. A verdade é preciosa. Mas será que estamos a avançar no caminho certo? Será que estamos a avançar no sentido de uma informação mais consciente? De uma informação que analise primeiro e divulgue depois?

 

Tão importante como ter a informação, é saber exactamente o que fazer com ela. E a avaliar pela muita histeria que tantas vezes lemos, ouvimos e vemos, estamos longe desse cenário. E não se culpem aqui as televisões, porque o simples facto de a difusão da informação estar hoje dispersa pelos meios mais convencionais e pelos chamados “social media” baralha e de que maneira as contas. No futebol, por exemplo, a UEFA recomendou que os invasores de campo deixassem de ser filmados, para desincentivar os chamados espontâneos a correr no relvado. É claro que isso não os impede de continuar a entrar dentro do campo à procura de fama, como aconteceu no Europeu de França num jogo de Portugal. Mas, pelo menos, é-lhes cortada a publicidade gratuita aos olhos de milhões de telespectadores.

 

Há um bom par de anos, os meios de Comunicação Social portugueses concordaram quase todos na necessidade de deixar de noticiar casos de pessoas barricadas e suicídios, após vários casos ocorridos, numa tentativa de vedar o palco mediático a pessoas com problemas de saúde mental ou a simples exibicionistas. Estes não deixaram de existir, mas pelo menos os seus actos deixaram de ter eco – houve meios que furaram o acordo, mas essa é outra conversa...

 

O que deverá estar em discussão é o modo como é feita a exploração exaustiva dos casos mediáticos, em que durante horas a fio se diz coisa nenhuma, se mostram repetidamente imagens que não trazem nada de novo e que podem muito bem servir como incentivo para pessoas que, fragilizadas na sua condição mental ou predispostos a actos violentos, se sintam incentivadas por aquilo que vêem. É sempre bom recordar que em momentos de choque geral, como é o caso de atentados terroristas, as emoções estão à flor da pele e todos os envolvidos (terroristas, vítimas, consumidores de informação) ficam muito mais vulneráveis e quem tenha já pensado em levar a cabo algo de semelhante acaba por ganhar novo alento…

 

Se a loucura não pode deixar de ser notícia, pelo menos que haja o cuidado primário de pensar primeiro e noticiar depois. Este é um debate que, mais cedo do que tarde, vai ter de ser feito. A bem de todos.

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