Rafael Marchante/Reuters

Crónica

Um Marcelo em cada esquina: 100 dias sem descanso

Cavaco Silva, na mesma função, era como aquele tio muito chato que só vemos de dois em dois anos e que só sabe queixar-se da vida e do clima. E que nunca nos dá 20 paus para um gelado.

Texto de João Nogueira Dias • 30/06/2016 - 16:17

João Nogueira Dias é um ninja que não aprecia artes marciais

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No passado dia 16 de Junho, Marcelo Rebelo de Sousa completou 100 dias como Presidente da República (e 200 consecutivos a aparecer nos noticiários a tomar café em tascas). Como gosto de gerir bem os tempos de comunicação (a prova disso é que gosto de falar de temas como o défice orçamental ou a prisão de ventre em alturas apropriadas como a ceia de Natal ou jantares de aniversário), decidi assinalar as duas semanas de Marcelo como Presidente com 100 ou mais dias.

 

Mentira: eu queria publicar isto no dia 16, mas precisei deste tempo todo para analisar, com detalhe, as intervenções públicas de Marcelo.

 

Antes que me atirem pedras, porque isto de expressar opinião na Internet tornou-se mais perigoso do que destartarizar os dentes de um leão sem o sedar, faço uma declaração de interesses: eu votei em Marcelo e já tinha saudades de ter um Presidente presente. Cavaco Silva, na mesma função, era como aquele tio muito chato que só vemos de dois em dois anos e que só sabe queixar-se da vida e do clima. E que nunca nos dá 20 paus para um gelado.

 

Pois bem, apesar de Marcelo ser um Presidente presente, eu acho que podia ser ainda mais. Sendo assim, programei-lhe uma agenda mediática, para que o Presidente esteja sempre connosco.

 

A abertura da Bolsa de Lisboa seria transmitida diariamente, para darmos um sinal aos mercados. Geralmente, a abertura da Bolsa tem um tipo a tocar um sino. Marcelo abriria a Bolsa com um grupo de bombos de uma aldeia qualquer. Sinos são para meninos, nós abriríamos a bolsa de bombo. Os mercados, em vez de receosos, ficariam fanfarrões.

 

Da Bolsa, Marcelo seguiria para os estúdios da RTPN, onde faria a revista de imprensa. Fosse qual fosse o jornal (do Público à Bola, porque ele também fala de futebol), o Presidente teria enormes probabilidades de ter que se comentar a si mesmo. Nada que nunca tenha feito, enquanto comentador. Como diria Jorge Jesus: “Peaners”.

 

De seguida, estúdios da TVI, onde se juntaria a Manuel Luís Goucha e Cristina Ferreira, para entrevistar mais uma pessoa cujo sofrimento seria mote para televisão da pio… da qualidade que os tempos modernos sugerem. Depois do Marcelo de bombo e interventivo, teríamos um Marcelo condoído, consternado.

 

Antes do almoço, a “Praça da Alegria”, na RTP, onde Marcelo participaria nas sugestões culinárias. Este espaço garantiria o nosso momento diário para ver o Presidente a comer queijos e enchidos. Bem mais "cool" do que Cavaco Silva a mastigar bolo-rei de boca aberta.

 

Depois do almoço, o “Sociedade Civil”, na RTP2, juntaria o Presidente a um grupo de convidados que discutiriam temas pertinentes da nossa vida colectiva. Com o tempo, deixaria de ser necessário convidar outras pessoas, porque Marcelo garantiria o tratamento de todos os temas sozinho.

 

A meio da tarde, um fórum da SIC Notícias, onde comentaria o tema do dia e de onde, de vez em quando, ligaria para o próprio programa em que estava a participar, acumulando os papéis de comentador e de telespectador. Tudo em nome de uma maior interactividade.

 

Para o “Preço Certo”, Marcelo traria enchidos que tinham sobrado da “Praça da Alegria” e oferecê-los-ia a Fernando Mendes. Depois, jogaria a montra final e, dada a sua capacidade de dizer tudo sem se comprometer, o Presidente apostaria no preço: qualquer coisa entre cinquenta cêntimos e 100 mil euros. Ganharia sempre.

 

Depois do jantar, Marcelo quereria um pouco de sossego, pois estaria cansado das luzes da ribalta. Por essa razão, estaria num programa sobre jazz na Antena 2.

 

Depois, até às cinco da manhã, o tempo seria preenchido com rádios locais. Mas nós, ao contrário do nosso Presidente, temos que descansar durante a noite. Sobretudo, quando acumulamos 100 dias sem descanso.

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