Jorge Duenes/Reuters

Crónica

Dois pesos, duas medidas, a histeria de sempre

Consta que 99% das espécies que já pisaram este bloco estelar de pedra quinaram num dado momento da história do planeta. E — pasmo!, horror!, batata frita! — não fomos nós que as matámos

Texto de Nelson Nunes • 21/06/2016 - 12:04

Nelson Nunes
Nelson é escritor disfarçado de jornalista armado em investigador

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Das duas uma: ou as redes sociais nos andam a tornar acéfalos, ou (mais provável) os acéfalos começam a ganhar à-vontade nas redes sociais e, por isso, disfarçam-se menos. Para além dos disparates comuns partilhados pelos "Gustavos Santos" e dos "Chagas Freitas" desta vida, anda aí uma moda muito tola no que toca à defesa dos direitos dos animais.

 

Uma das mais recentes "polémicas" (não odeiam esta palavra?, qualquer merdinha, qualquer trapo virado do avesso, já é "polémica", não há critérios como antigamente; adiante) é a do festival de carne de cão. Que não pode ser, coitaditos dos canitos, que são tão boa companhia e que não podem ser comidos, que isto é a antecâmara do canibalismo. Claro que é uma pena que se matem cachorros para comer, mas também é uma pena que se abatam coelhos ou frangos. E agora?

 

Meus amigos, se já chegámos aqui, considero altamente pertinente que os nossos primos chineses se revoltem e exijam a libertação iminente do chicharro de todas as lotas da Comunidade Europeia. Aliás, na verdade, é bem capaz de haver tribos indígenas que andem a telefonar em barda para as altas patentes militares europeias, condenando liminarmente o esmagamento da uva à base de pés nus, por ser um desrespeito à divindade criadora da constelação Manhètus. Isto é tudo uma questão de perspectiva: para nós, europeus, os cangurus são um bicharoco fofinho e amigável; para os australianos, são uma praga maior que a ratazana de esgoto.

 

Neste momento, a única espécie em extinção é a do bom senso. Se, por um lado, é triste que haja cães a servir de papinha aos nossos companheiros planetários asiáticos, não é menos hediondo que se andem a matar porcos à base de paulada ou patos à base da embriaguez aqui neste canto do burgo. Mas — infelicidade da lei da vida — há que matar para sobreviver, sejam eles animais, plantas ou gambozinos venusianos. Sim, eu disse plantas, e se vêm já com essa cena de as plantas não terem sensações, desamparem a loja: há cientistas que dizem que as plantas têm sistema nervoso central e que sofrem muito quando lhes arrancamos uma folha. Portanto, está tudo em igualdade de circunstâncias e já não temos de nos sentir culpados por haver sempre aquele amigo vegetariano pronto a dar-nos lições de moral. Parece que, agora, os vegetarianos também são assassinos. "Deal with it".

 

Nada disto invalida que haja por aí histéricos contra as entidades protectoras dos direitos dos animais. Há uma semana, mais coisa menos coisa, um artigo alarmista do "i", esse jornal que já foi referência, dizia que, só este ano, já não-sei-bem-quantos cães tinham atacado gente, fazendo parecer que os melhores amigos do homem são, afinal, como dizem os nossos amigos brasileiros, amigos da onça, sempre prontos a espetar-nos a faca quando não estamos a ver. Este enviesamento factual fez-me lembrar, de imediato, de uma brincadeira que Anthony Jeselnik fez na Comedy Central, em 2013: acontece que Jeselnik adora tubarões e, de maneira a fazer pouco do antropocentrismo comum do Homem, celebra com uma "shark party" cada ataque de tubarão sobre um ser humano. É que, de acordo com as estatísticas mais credíveis, o ser humano assassina cem milhões de tubarões anualmente. Para o comediante, é reposta alguma justiça na contabilidade quando um bicho come um senhor.

 

De qualquer maneira, o único facto que parecemos não saber aceitar (ou sequer conhecer) é que somos tão focados nos nossos umbigos que achamos que somos a maior causa de destruição na Terra em 4.5 mil milhões de anos. Amiguinhos, acalmem o espírito: não somos. Consta que 99% das espécies que já pisaram este bloco estelar de pedra quinaram num dado momento da história do planeta. E — pasmo!, horror!, batata frita! — não fomos nós que as matámos. É bom poder salvar uma ou outra, sem dúvida, e há poucas coisas mais dignas do que as associações de defesa de animais, mas temos sobre os ombros muita culpa que não merecemos. E muita bílis corrosiva que não nos deixa ver a vida como ela é.

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