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Melissa Lopes

Melissa Lopes é (academicamente) quase mestre em jornalismo. Nasceu em 1989

O excerto

Se é verdade que ninguém nasce ensinado — por isso encaro com normalidade o período de estágio de um jovem acabado de sair da faculdade —, não menos verdade é que também chegam às redacções pessoas sem a mínima vocação e noção do que é ser jornalista e que, depois dos três meses de experiência, permanecem no mesmo patamar. Poderiam estes ser automaticamente contratados apenas por terem um diploma sem mostrar o que sabem e o que podem vir a saber?

hongoxl/Flickr

Crónica

Ser estagiário é mostrar que existimos

O estagiário na área do jornalismo realiza-se quando vê conquistada a sua autonomia na redacção. E quando nota que está a ser verdadeiramente útil? É o auge

Texto de Melissa Catarina Lopes • 10/07/2014 - 16:46

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Ser estagiário é, antes de qualquer coisa, uma satisfação imensa e um marco importante na vida de um estudante de jornalismo que, depois de tanta teoria e de tantos “exercícios” académicos, vê a sua ambição tornar-se numa realidade mais tangível — em três meses aprende mais do que aquilo que aprendeu em três (ou mais) anos na universidade.

 

Mesmo sabendo que no final do mês não vai ter um salário, o estagiário quer aprender e aprende, conforme a sua disposição, vontade e talento. É um percurso natural e necessário para quem quer ingressar na profissão. O estagiário realiza-se quando vê conquistada a sua autonomia na redacção. E quando nota que está a ser verdadeiramente útil? É o auge.

 

Mas até lá, o estagiário passa por um período de adaptação e requer alguma atenção dos outros jornalistas. Nas primeiras semanas (dependendo do caso), o estagiário pouco faz e o que faz fá-lo a um ritmo assustadoramente lento quando comparado com os séniores.

 

Se é verdade que ninguém nasce ensinado — por isso encaro com normalidade o período de estágio de um jovem acabado de sair da faculdade —, não menos verdade é que também chegam às redacções pessoas sem a mínima vocação e noção do que é ser jornalista e que, depois dos três meses de experiência, permanecem no mesmo patamar. Poderiam estes ser automaticamente contratados apenas por terem um diploma sem mostrar o que sabem e o que podem vir a saber?

 

Ser estagiário é saber aproveitar o momento para construir um currículo distintivo (ou não), já que esta é a única via para ganhar experiência. É o momento em que se percebe quem pode efectivamente ingressar na profissão (se é que ainda é possível) e quem tem de abandonar a ideia. Nos primeiros dias, ser estagiário é aprender a fazer “leads” decentes, por incrível que pareça. É ter muito medo de errar. Medo de escrever disparates e de transcrever mal as citações. É ouvir milhentas vezes as gravações para não falhar um vírgula e anotar tudo “porque nunca se sabe se poderá ser importante”. Com o tempo, o gravador deixa de estar em primeiro plano e entra em acção o ouvido, a caneta e o bloco de notas. Ganha-se confiança, autonomia e, paralelamente, cresce a responsabildade. A nossa e a que nos colocam em mãos.

 

Ser estagiário é também estar sempre disponível (não confundir com escravatura) e demonstrar valor e paixão. É uma função tão mais relevante quanto mais empenho se colocar nela. Não é um mero “exercício”, mas sim o culminar de um longo percurso, nem sempre fácil, para uma profissão incerta que agora se revela mais cruel do que aquilo que se imaginou.

 

Já que não dão para mais, ao menos que os estágios sirvam para mostrar que existimos: ser estagiário é ver o nosso nome cravado no papel ou na página online do jornal. Se assim não for, para que serve querer ser se não dá para ser na prática?

 

Nota final: falo aqui do estágio como primeira experiência no mercado de trabalho. Tudo o que vier depois disso — sucessivos estágios não remunerados, por exemplo — faz parte de um esquema maléfico de uma escravatura moderna que todos devíamos condenar.

Eu acho que
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