Unsplash

Crónica

A importância da educação no combate ao populismo

Com a nova decisão do Governo, jovens sem média de acesso ao ensino superior em Lisboa ou no Porto ver-se-ão obrigados a deixar o seu local de residência para ir estudar no interior do país. Até que ponto é que os alunos não serão prejudicados?

Texto de Maria Carreira • 21/05/2018 - 15:31

Maria Carreira tem 18 anos e procura conciliar o interesse por ciência e literatura, através da escrita.

Distribuir

Imprimir

//

A A

Na mesma semana em que Luigi Di Maio e Matteo Salvini, do Movimento 5 Estrelas e da Liga respectivamente, chegaram a um acordo governativo com a publicação do Contrato per il governo del cambiamento, foi anunciada, em Portugal, a redução de 1100 vagas do ensino superior público em Lisboa e no Porto, com o intuito de combater o despovoamento do interior do país.

 

Por um lado, em Portugal, as vagas disponíveis no ensino superior foram reduzidas em cinco por cento, visando contrariar a crescente concentração de estudantes em Lisboa e no Porto, na medida em que os jovens se deslocam para as duas maiores cidades nacionais para prosseguir os seus estudos superiores. Questiono se será esta decisão legítima, uma vez que é nestes locais que se encontram as instituições melhor classificadas nos rankings nacionais. Até que ponto é que os alunos não serão prejudicados por tal decisão do Governo?

 

Analisando este cenário, conclui-se que jovens sem média de acesso ao ensino superior em Lisboa ou no Porto, residentes nessas cidades, ver-se-ão obrigados a deixar o seu local de residência para ir estudar no interior do país. No entanto, o que acontece àqueles cujas condições económicas os impedem de suportar as despesas envolvidas na mudança de cidade? Qual é a alternativa? Instituições de ensino privadas? Bolsas de acção social? Na minha opinião, estas alternativas não são, de todo, satisfatórias ou suficientes, para além de me parecerem limitativas. O corte das vagas em causa conduzirá, eventualmente, à redução da taxa de ingresso no ensino superior por parte dos estudantes portugueses.

 

Por outro lado, em Itália, deparamo-nos com uma solução de governo populista, decidida, entre outras medidas, a expulsar 500 mil migrantes de território italiano, a reduzir os impostos e a atribuir um rendimento mínimo básico de 780 euros às famílias carenciadas, opondo-se firmemente à globalização e à inclusão de Itália na União Europeia. Para um cidadão desprovido de espírito crítico e alienado de consciência política, estas são propostas aliciantes, que aparentam funcionar como um “elixir mágico”, capazes de resolver os problemas da nação e conduzir Itália à grandeza de outrora, eliminando as contrariedades que só a liberdade e a democracia europeia potenciaram. E a verdade é que o Movimento 5 Estrelas ganhou as últimas eleições, o que demonstra como esta atracção é uma realidade vigente e torna ainda mais preocupante a emergência de partidos nacionalistas. Apesar de não ter conseguido a maioria para formar governo, a aliança com a Liga permitiu ultrapassar esse “obstáculo”, desencadeando um panorama político instável no país como nunca antes presenciado.

 

De facto, a massa populista que se verifica em Itália apresenta elevadas taxas de sucesso, na medida em que proclama representar a “voz do povo” e cumprir os seus desejos, captando multidões expectantes e crentes na prosperidade. Os alvos mais fáceis dos populistas são os jovens e todos aqueles cidadãos, vítimas do desemprego, vivendo precariamente ou sem a educação necessária para questionar ou reflectir adequadamente sobre os discursos bacocos de líderes como Salvini e Di Maio.

 

Acredito que se um movimento populista surgisse em força em Portugal, como sucedeu em Itália, a atracção de parte dos jovens pelo mesmo seria expectável e nada surpreendente. Num país em que o combate ao despovoamento do interior passa por “forçar” os alunos cujas médias não lhes permitam ingressar em universidades em Lisboa e Porto a estudar fora de casa, apelos demagógicos infundados e falsas promessas de reformulação do sistema de ensino convergentes com a vontade do “povo” seriam calorosamente recebidos.

 

Os jovens, idealistas, revelam-se alvos fáceis de populismos e de medidas acríticas, baseadas no senso comum e sem qualquer fundamentação racional. A educação e sensibilização para a identificação deste género de movimentos constitui uma ferramenta essencial para o desenvolvimento do pensamento crítico, adquirindo estes a “vacina do populismo”. Esta confere-lhes resistência contra grupos políticos extremados, opositores da democracia, impedindo a queda na atractiva armadilha que é o discurso populista, um discurso fracturante e simplista, ao opor o “povo” às “elites privilegiadas”.

 

Todavia, a metafórica toma dessa vacina ocorre somente “na escola”, constituindo a universidade um local de aprendizagem e construção de espírito crítico e amadurecimento de ideias e perspectivas. Se se priva alunos do acesso ao ensino superior, então existirão menos indivíduos devidamente informados e com imunidade às demagogias e discursos alarmistas, conduzindo necessariamente a uma maior desinformação da população. Também a probabilidade de atracção por populismos cresce exponencialmente.

 

O populismo já não é uma realidade exclusiva da América Latina e afastada da democracia europeia, é um problema actual e europeu, que se tem vindo a exacerbar pela Europa e que se chegar em força a Portugal (esperemos que não) acarretará consequências graves com as suas intenções nacionalistas. Cabe-nos a nós, portugueses e também cidadãos europeus, garantir uma educação democrática, completa e inclusiva aos jovens para que estes se tornem cidadãos conscientes e interventivos.

Voltar ao topo

|

Corrige
Eu acho que