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Palavra de Aurélio

Sortido

Vou tentar concentrar-me na tarefa que me foi pedida de tentar salvar deste mar de uso indevido, desatenção, desprezo ou esquecimento algumas palavras da língua portuguesa

Texto de Aurélio Moreira • 27/04/2018 - 14:55

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Segundo a minha agente — que negoceia (ou negocia) o estipêndio pelas minhas intervenções em programas de TV, rádio, em reportagens de revistas e jornais, conferências, seminários, palestras, monólogos cómicos, copos-d’água, portos de honra, lançamentos de primeiras pedras, cursos de escrita criativa e visitas guiadas à serra do Buçaco — as minhas últimas crónicas têm enfermado da “síndroma da assembleia geral”, isto é, são “longas de mais”. Afortunadamente, acolho as críticas sempre como construtivas e sempre com um sentido de elegância esquisito (não no sentido de extravagante, mas no de primoroso, que a palavra também tem).

 

É certo que na confusão da surpresa comecei por urrar e puxar os cabelos e cair desamparadamente para dentro da banheira de ferro, antiga, daquelas com patas de leão, que um decorador visionário decidiu pôr no meio do meu quarto e que, sem cortina nem resguardo, não dá para tomar banho porque alaga o soalho de madeiras nobres (embora fique bem nas revistas de decoração), mas logo assentou a minha natureza benigna, que me fez assomar ao rosto um pouco lívido o sorriso próprio dos nababos, quando me ocorreu que nem o grande Mozart se furtou à acusação de compor óperas com “demasiadas notas”. Demasiadas notas!... (grandes brutos). Serei, pois, telegráfico.

 

Outra crítica, esta de alguns vizinhos que, dir-se-ia, tomaram o freio nos dentes, é a de que, com as minhas alegadas “torrentes de escrita” (não sei onde foram desencantar tal expressão), perco de vista os exemplos práticos e didácticos por que anseiam os meus leitores mais fiéis. Serei, pois, mais terra a terra (já lá diz o ditado: “Cada terra com seu uso, todas, todas, com Sical”).

 

Desminto a alegada longura e a alegada míngua exemplificativa com duas palavras por vezes usadas erradamente: sortido e avulso.

 

Nas casas remediadas de antigamente (sendo este “antigamente” lassamente definido como tendo ocorrido entre a invasão muçulmana da Península Ibérica, em 711, e a minha infância), havia uma caixa preciosa, um cofre guardado num armário sob a autoridade irrecorrível da mãe, com que se recebiam as visitas mais ilustres. Era a “caixa do sortido”. Numa época de aparente chegada da “sociedade da abundância” descrita nos anos 70 pelo economista John Kenneth Galbraith, temo que estas descrições, mesmo que superadjectivadas, falhem em dar a quem lê uma sensação próxima da emoção das crianças de uma dessas casas quando recebiam para o lanche a tia Josefa, que morava longe, o Sr. Macieira, comerciante, e esposa, a professora da escola primária, o médico, o presidente da câmara municipal, o senhor abade, o bispo, o arcebispo primaz, o cardeal-patriarca (o Papa era raro fazer uma aparição), a baronesa de Amorinhas, o conde de Zarcão. Então a mãe, como prova de hospitalidade excelentíssima, tirava do sacrário a tal lata e, em procissão, colocava-a com esmero no centro geométrico de um paninho de renda pescado dos confins do baú do seu enxoval, sobre a mesa da sala de jantar, presidida pela garrafinha de vinho do Porto. Chegada a hora H, o ponto alto da liturgia, a sacerdotisa removia a tampa da caixa, e, ao fazê-lo, enfunava uns véus brancos translúcidos, imaculados, de papel de seda que, abrindo-se, revelavam, finalmente, umas bolachas finíssimas todas em floreados, rendilhados e arrebiques das “Mil e Uma Noites”, e ainda com coberturas de geleia de fruta, de açúcar ou de chocolate. Não sei qual é o correspondente actual desse conjunto de “sortido” e “vinho fino”, mas duvido que seja tão significante como era naquela época, não por desconhecer o muito que existe agora, mas por ter bem noção do tão pouco que havia então.

 

Para os que acham piada a descobrir, em filmes antigos, participações insignificantes de actores famosos no período precedente à sua fama, por exemplo, reconhecendo o Louis de Funès em Antoine et Antoinette, de Jacques Becker, proponho um exercício que requer o mesmo nível de atenção: quando assistirem a uma homenagem ao grande ciclista Joaquim Agostinho e se um dos blocos de imagens escolhidos for o da vez em que recebeu muito hospitaleiramente uma equipa da RTP na sua casa, reparem no que cerimoniosamente foi posto em cima da mesa: exactamente, a caixa de bolachas sortidas. Quem dá o que tem a mais não é obrigado. 

 

Aproveito para lembrar, por razões contratuais, que a palavra sortido não é invariável. Como nome, significa “sortimento, variedade, provisão”, o que se pode ver em, por exemplo, um sortido de bolachas. Como adjectivo, é “abastecido; composto de diferentes géneros, padrões, etc.” Por isso não se diga “bolachas sortido”, mas bolachas sortidas ou um sortido de bolachas. Do mesmo modo com avulso, que é um adjectivo que significa “arrancado ou separado por força ou violência; isolado; solto” (Porto Editora). Assim, tem de concordar em género e em número com o nome que qualifica: venda avulsa, chocolates avulsos.

 

Correio premente

De Cassilda Caneta, Clermont-Ferrand, Puy-de-Dôme, França: “Até agora, nenhuma referência a gatos, essas encantadoras criaturas que nos aquecem a alma e nos fazem companhia e que em muitos casos são melhores do que muita gente que eu conheço – e eu conheço pouca gente! Só para o ouvir falar de gatos ou, pelo menos, para o fazer escrever a palavra gatos, vou fazer-lhe duas perguntas: tenho uma amiga que umas vezes tem mais gatos do que eu e outras vezes sou eu que tenho mais. Ambas temos gatos siameses mas ela entende que os gatos não se deviam chamar siameses porque siameses são os irmãos gémeos e além disso que país é esse? À parte do país, eu soube responder, pois siameses são do Sião, mas o Sião já não existe há muito tempo. Só não lhe soube explicar quando ela me perguntou como era possível o país não existir e os gatos sim. Outra coisa: tenho um gato angorá muito catita que me fugiu de casa. Dois dias depois, aparece-me um vizinho do último andar, um sujeito amarelento que vive sozinho entre milhares de livros e que nunca sai de casa, com o meu gato preso pelo cachaço, que me pergunta: ‘É da senhora este gato angóra?’ A princípio, não percebi. Pensei que tinha perguntado se o meu gato era meu agora... E agora pergunto eu: o que é angóra? Será uma destas doenças novas que têm inventado praí? E tem cura?...”

 

Primeiro a questão dos irmãos e dos felinos siameses. Toda a gente sabe – exceptuando, talvez, os jovens quando há uma interrupção na Internet e os concorrentes de um programa que estão dentro de uma casa sem pão, onde toda a gente ralha e ninguém tem razão – que a expressão irmãos siameses se refere a um problema no desenvolvimento embrionário humano em que irmãos gémeos verdadeiros nascem unidos fisicamente, de forma muito variável e com a cirurgia de separação a ser ultimamente cada vez mais viável, dependendo dos órgãos partilhados. A designação deve-se ao primeiro caso de que há registo, o dos irmãos Chang e Eng, que viveram entre 1811 e 1874 no Sião. E embora lhe possa parecer estranho, o país continua a existir, mas agora com o nome de Tailândia, o que veio causar uma certa confusão, já que nem os turistas sabem o que são massagens siamesas, nem os felinófilos sabem o que são gatos tailandeses. No que toca a “angorá”, tenho muito prazer em dizer-lhe que é erro de pronúncia e que, a não ser que a cara consulente felinófila tenha nascido em França, fácil será corrigir para angora, mas sem acento. A não ser que os vizinhos de V. Ex.ª falem por balões de banda desenhada com gralhas, ao contrário do boníssimo exemplo que há tantos anos dá o nosso colega Luís Afonso no seu distintíssimo Bartoon...   

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