Joana Gonçalves

Coimbra

Marias do Loureiro, a república onde mulheres gritam a uma só voz

Em Coimbra, há uma república feminina de estudantes que se define como feminista, anti-hierárquica e anti-praxe. Para integrar as Marias do Loureiro só é preciso contribuir para o debate

Texto de Maria João Monteiro • 21/01/2018 - 13:04

Distribuir

Imprimir

//

A A

À medida que galgamos as colinas do centro histórico de Coimbra, as ruas ficam mais estreitas e a tradição adensa-se ao virar de cada esquina. No n.º 58 da Rua do Loureiro, a porta de madeira carcomida está aberta e a entrada é um vislumbre de cor e das mensagens que adornam as paredes da república das Marias do Loureiro, onde se podem ler frases como “Viva la vulva” e “Eu não penso, eu ocupo”. É hora de almoço e Márcia Aires, de 20 anos, está a preparar tortilhas para a refeição que vai partilhar com as colegas de casa. A estudante chegou à república há precisamente um ano devido à necessidade de questionar o mundo que a rodeava. “Em toda a sociedade há espaços onde os homens detêm mais poder e as pessoas que fundaram esta casa quiseram que fossem só raparigas para que não houvesse homens a ocupar o nosso espaço de fala”, começa por contar ao P3.

 

As Marias do Loureiro nasceram em meados dos anos 80, primeiro enquanto casa comunitária, posteriormente como solar e só depois oficialmente como república em 2003, após passarem pelo processo moroso de criação de república que “levou ainda mais tempo por serem feministas numa altura em que não se falava do assunto”. Ao longo dos anos, as várias gerações de Marias afirmaram a identidade da república como feminista, anti-hierárquica e anti-praxe. “Queremos tentar combater todas as formas de opressão e abuso de poder, seja em que ocasião da nossa vida for, criar um espírito de solidariedade e entre-ajuda que, se calhar, não encontramos noutros sítios e destruir o patriarcado”, elabora Inês Capelo.

 

Inês tem 23 anos e é comensal das Marias do Loureiro, o que implica viver noutra república, mas ter uma presença assídua nas refeições da casa e participar de forma activa nas reuniões semanais e em actividades como debates, feiras e workshops. Enquanto Márcia continua com as mãos na farinha, Inês explica que chegou às Marias porque “estava a contestar muito as coisas em termos ideológicos”. “Estar numa república em que sei que vai ser muito mais fácil discutir estes temas durante o almoço do que em minha casa é uma grande ferramenta de crescimento pessoal”, afirma.

 

Mais do que uma república 

Quando teve o primeiro contacto com a Coimbra da saudade e do fado, Inês estava longe de imaginar que encontraria um lugar onde as suas ideias poderiam ser discutidas e desafiadas. “No início, disseram-me que um ano numa república equivalia a cem. Pensava que era mais um daqueles clichés universitários — ainda por cima eu sou de cá e farto-me de ouvi-los”, confessa. “Depois de um ano a viver numa república, reconheço que não é assim tão descabido.”

 

De acordo com a estudante, as Marias do Loureiro são, mais do que uma república, um ambiente em que “as pessoas podem inserir-se para formular o seu pensamento”. Não é obrigatório partilhar dos ideais feministas que caracterizam as Marias para poder integrar a casa, mas apenas estar disposto a viver a vida comunitária. “Só porque não acreditas no mesmo que eu, não quer dizer que te vamos fechar a porta. Vamos falar e debater sobre isso”, diz Inês. Para ser uma das Marias, o mais habitual é começar a frequentar cada vez mais a república para que haja uma adaptação progressiva às dinâmicas e às pessoas. “Podes partilhar dos ideais, mas depois chegar cá e não te sentires bem na casa”, aponta Márcia. “Vens e vais ficando. Um dia já tens a tua escova de dentes aí e estás mais ou menos a viver cá”, acrescenta Inês.

 

O feminismo atravessa fronteiras e há quem procure uma experiência diferente para o seu período de mobilidade académica. A brasileira Poliana da Paz Melo, de 22 anos, chegou a Coimbra em Setembro de 2017 e afirma sem hesitar que as Marias do Loureiro mudaram a sua vida. “Nunca vivi este estilo de vida comunitária, só com mulheres, feministas e com pensamentos diversos, porque o feminismo é múltiplo”, explica. “Estes seis meses mudaram a forma como eu encaro as pequenas coisas e deram-me mais jogo de cintura para lidar com tudo”.

 

Abdicar do conforto por companheiras para a vida

Alba Aparicio e Isabel Meizoso vivem na república desde o início do ano lectivo e já falam uma mistura de português com castelhano. “Aqui aprendemos a língua, a vida, é outro ambiente”, refere Alba. A estudante catalã reconhece que é difícil imaginar o regresso à correria de Madrid. “Aqui é tudo tão pertinho, conheço todas as pessoas da rua e das lojas. Acho que quando voltar vou entrar em depressão”, diz, entre risos.

 

Para Isabel, a grande vantagem de viver na república é a liberdade que há para fazer escolhas e desenvolver novas capacidades. “Aqui põem-se em prática muitas ideias que queremos sempre levar avante na nossa vida diária e nunca levamos”, explica. “Aqui tens liberdade de decidir tudo; se quiseres pintar as paredes da casa, podes. Se quiseres experimentar dançar ou pintar, tens outra confiança e vontade para o fazer.”

 

O almoço está pronto e as Marias reúnem-se em torno da mesa, não sem antes abanar a sineta da mesa que ecoa pelas divisões da casa para chamar todas as colegas. Cristiana Pereira tem 20 anos e conta que foi esse espírito de comunidade que a fez sair de uma residência universitária para ir viver para a república. “A residência tinha condições muito melhores, mas eu prefiro muito mais estar aqui, faz-me muito bem. Nas residências as pessoas são muito individualistas e apesar de dividirem quarto, cada uma faz o jantar para si.”

 

Enquanto instituição que se opõe às hierarquias e, por extensão, à praxe, as Marias do Loureiro são olhadas com desdém por alguns estudantes que levam a tradição a peito. “Há muita gente que não percebe por que é que somos contra a praxe e que vem aí para a rua aos berros”, conta Márcia. O Largo de São Salvador, que faz paralelo com a Rua do Loureiro, é aliás “conhecido por ser historicamente o espaço anti-praxe de Coimbra”, nota Inês.

 

Abrir a porta a quem quiser entrar 

Também em Conselhos de República — reuniões convocadas por uma das repúblicas quando é necessário discutir um determinado assunto —, as estudantes sentem a dificuldade de ser levadas a sério face aos pares do sexo masculino. “Como somos mulheres em reuniões com homens, vamos sempre todas para estarmos em força”, afirma Maria Santana Gabriel, de 21 anos. “Já aconteceu falarem por cima de nós e não nos darem a devida atenção. Se um rapaz disser a mesma coisa que uma rapariga por outras palavras, é logo apoiado.”

 

A estudante reconhece que a sua vida nas Marias é “uma passagem que vai ficar para sempre”. À semelhança das outras repúblicas, as Marias do Loureiro tentam manter o contacto com todas as pessoas que por ali passam. Todos os anos, as casas celebram o seu aniversário — o chamado centenário, em alusão à metáfora dos cem anos contidos no primeiro ano a viver numa república — e abrem a porta a todos que queiram entrar. Mas a inclusividade não se esgota neste dia do ano. “Todos temos traumas e mágoas e o mais fácil seria permitirmo-nos sentir o ódio e a raiva”, refere Alba. “Aqui queremos escolher outro caminho. Tornarmo-nos melhores pessoas sem deixar ninguém de parte.”

Voltar ao topo

|

Corrige
Eu acho que