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Crónica

Mimo a mais não estraga uma criança. A falta de limites sim

Uma criança sem limites é uma criança em auto-gestão. Uma criança sem amor ou sem limites será sempre um adulto em apuros

Texto de Cátia Lopo e Sara Almeida • 06/12/2017 - 13:10

Sara Almeida e Cátia Lopo são psicólogas clínicas e criadoras da Escola do Sentir

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Ser criança é muitas vezes visto com um pano de fundo em que tudo parece perfeito ou, pelo menos, quase perfeito. No entanto, ser criança não é sempre um arco-íris, cheio de cor, de vida e bem-estar; às vezes, ser criança é cinzento, umas vezes mais claro, outras cinzento escuro, quase negro, sem pontos de luz. Afinal, que bicho papão é esse que parece tirar a cor à infância? Que bicho papão é esse que, às vezes, se torna tão grande dentro de cada criança que parece contaminá-la em todas as áreas? Quais os ingredientes para uma criança feliz?

 

A criança nasce e precisa de protecção, que cuidem dela e garantam o seu correcto desenvolvimento. É dependente! Mas se cuidarmos fisicamente do bebé e depois nos esquecermos de lhe dar amor, ele entra naquilo a que os técnicos de saúde mental chamam "depressão analítica", um estado que reflecte a não satisfação da necessidade de um amor seguro e incondicional.

 

O coração da mãe e o coração do pai — sim, porque não nos podemos esquecer que o pai pode ter um coração tão grande como o da mãe, temos de deixar de o subestimar! — sabem bem no seu íntimo que o principal ingrediente para uma criança feliz é o amor. O amor seguro e incondicional, o afecto, o mimo, como só os pais de alma e corpo cheio sabem dar!

 

Não, não é verdade que o mimo estraga as crianças, nunca uma criança ficou estragada por ter mimo a mais ou por ter amor a mais! O mimo e o amor funcionam como o combustível que nos faz mover, não só em criança, mas ao longo de toda a nossa vida. É o amor que nos prende à vida e só quando o amor nos segura podemos alcançar a felicidade.

 

Mas, então, o que é isso de “ele é mimado, ninguém faz nada dele”? Que "mimo mau" é esse que afecta tantas das nossas crianças? É a falta de limites. De novo, os pais são capazes de sentir no seu íntimo que só com limites claros a criança cresce segura de si! Quase todos os pais conseguem senti-lo, mas só os pais conscientes, os que estão seguros de si, de alma e corpo cheio, conseguem fazê-lo; só esses pais conseguem estabelecer as balizas sem resvalar para um lado de "general autoritário", sem parecerem mais assustadores do que seguros. Os limites — embora na fase inicial uma criança os rejeite — atribuem-lhe segurança e robustez. É como se o pai e a mãe lhe dissessem ao coração: “Avança, que nós estamos aqui para garantir que tens o caminho seguro. Aconteça o que acontecer nós não te vamos deixar cair”.

 

Uma criança sem limites é uma criança em auto-gestão que, mesmo que sinta com o coração todo, ainda não sabe onde pode pisar ou não, explorando, aos poucos, o mundo de forma assustada, sempre com a ideia que um dia, se for preciso, pode ninguém estar lá para a proteger. Uma criança sem amor ou sem limites será sempre um adulto em apuros. Se queremos crianças felizes, precisamos de uma boa dose de amor em equilíbrio com uma boa dose de limites. Assim, de falha em falha, como só os bons pais se permitem a falhar, subtraímos birras, multiplicamos sorrisos e somamos felicidade em cada criança, em cada família.

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