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Crónica

Somos todos professores miseráveis

Colocar a culpa dos maus resultados apenas e só nos “professores miseráveis” é uma visão de quem não está no sistema, de quem não percebe do que está a falar e de quem apenas pretende pôr a culpa de tudo nos professores (maus resultados, défice e, quiçá, a seca)

Texto de Estefânia Barroso • 20/11/2017 - 19:15

Estefânia Barroso
Estefânia Barroso é professora por esse país fora. Cronista nas horas vagas.

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Assumo que fiquei maravilhada com o brilhantismo da intervenção de Rodrigo Moita de Deus no programa "O Último Apaga a Luz", na RTP3. Para contextualizar estas minhas palavras, destaco algumas das ideias chave deste senhor.

 

Segundo ele, "a greve só prejudicou as crianças". Estou totalmente de acordo consigo, senhor Moita de Deus. Onde é que já se viu uma greve que prejudica alguém? Não basta os professores serem “prejudicados” (em função de uma causa em que acreditam), perdendo um dia de salário? Se a bendita greve tivesse sido marcada para uma sexta-feira, ou uma segunda-feira, lá teríamos as vozes sábias, como a deste senhor, a dizer que apenas se organizam greves para que os professores tenham direito a um fim-de-semana prolongado. Aquela cambada de inúteis faz tudo para não trabalhar! Mas, infelizmente para as vozes que já estavam prontas para atirar estas palavras venenosas, a greve foi marcada para uma quarta-feira. Não podendo afirmar que procuraram o fim-de-semana prolongado, atiraram para outro lado. “Tenham vergonha, estão a prejudicar as crianças!” Surgem-me algumas dúvidas: o direito à greve, consagrado na Constituição da República Portuguesa, foi revogado e eu não percebi? Todos sabemos que uma greve irá sempre ter como consequência pessoas prejudicadas. Acontece assim com os médicos, acontece assim com os enfermeiros, acontece em qualquer sector de actividade. Mas será que os professores, por terem os alunos como público, não podem fazer greve? Afirmações destas parecem-me quase pueris.

 

Outra pérola a reter foi aquilo que considero uma máxima a reter: "Os resultados miseráveis dos alunos devem-se aos professores miseráveis que temos em Portugal." Mais uma vez terei que concordar com este senhor. Somos miseráveis em muitos aspectos. Miseráveis pela forma como somos tratados pelos sucessivos ministérios, miseráveis por cada vez menos dignificarem aqueles que se dedicam ao ensino, miseráveis por sermos obrigados a ser professores e burocratas, atolados em papéis e papéis, miseráveis por muitas vezes sermos obrigados a lidar com a violência por parte dos alunos, quando a mesma não chega por parte dos próprios encarregados de educação. Já no que aos resultados diz respeito, sublinho que colocar a culpa dos maus resultados apenas e só nos “professores miseráveis” é uma visão de quem não está no sistema, de quem não percebe do que está a falar e de quem apenas pretende pôr a culpa de tudo nos professores (maus resultados, défice e, quiçá, a seca). Desresponsabilizar os alunos nestes maus resultados é, mais uma vez, uma atitude pueril e pouco conhecedora.

 

Continuando na série de barbaridades ditas em tão pouco tempo, o senhor, que se afirma cansado de ouvir falar dos professores, declara que se vê na obrigação de colocar os seus filhos no ensino privado. E faz muito bem. Ouvi dizer que os professores que trabalham no ensino privado (contra os quais nada tenho a referir, note-se) se formaram todos eles nas universidades de Harvard e Cambridge. Deixando-me de ironias, questiono: afinal, em que universidades e/ou escolas superiores de educação estudaram os professores do ensino privado? Não estamos a falar da mesma formação de base? O que se passa depois da formação? A escola pública tem algum vírus que se propaga entre os professores do ensino público? Acredito é que, na visão de Moite de Deus, eles são de longe melhores profissionais do que a corja que trabalha no ensino público, uma vez que os mesmos não fazem greves em dias de semana e não incomodam, perdão, não prejudicam as crianças.

 

Ainda nessa intervenção se levanta a questão: afinal, para que serve todo o dinheiro investido na educação? De acordo com Moita de Deus, serve para benefício dos professores, que nem estão nas aulas e por isso enviam os alunos para as explicações. Pergunto eu: onde estamos nós se não estamos na sala de aula? É que, do trabalho que eu desenvolvo, nunca me foi retirada uma hora que fosse do meu trabalho lectivo para estar noutro local que não na sala de aula. Pelo contrário, muitas vezes me foram acrescentadas horas supostamente não lectivas, com trabalho em sala de aula, desenvolvendo trabalho com alunos. Para além disso, sim, trabalhamos muito fora da sala de aula. Muitas reuniões para pôr em prática projectos, planos, actividades… Um sem fim de reuniões para um sem fim de assuntos. Tudo em horário fora do que é considerado lectivo, como é óbvio.

 

Concluindo, o senhor Rodrigo Moita de Deus diz-se cansado das discussões apenas e só sobre professores: se eles estão ou não contentes, se estão satisfeitos com o rumo que a sua carreira está a levar, com o seu, digo eu, egocentrismo. Não perceber que o mau estar generalizado que se sente na classe dos professores é prejudicial a todos os agentes da educação, não perceber que somos uma classe com um nível elevadíssimo de síndrome de burnout, não procurar as razões para este nível elevadíssimo e limitar-se a declarar-se “cansado de ouvir falar dos professores” demonstra que esta intervenção, para além de desnecessária, não traz qualquer luz à discussão, limitando-se a um único objectivo: incendiar a opinião pública

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