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Crónica

No Dia Mundial da Filosofia, a doença

Classificada entre as "perturbações do espectro obsessivo", a "doença do filósofo", uma das mais antigas da Humanidade, origina-se geralmente na adolescência e possui evolução progressiva

Texto de Luís Coelho • 16/11/2017 - 12:31

Luís Coelho é fisioterapeuta e escritor

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No Dia Mundial da Filosofia, que se celebra a 16 de Novembro, convém lembrar alguns aspectos sobre a perturbação, a "doença do filósofo".

 

Classificada entre as "perturbações do espectro obsessivo", a "doença do filósofo" origina-se geralmente na adolescência e possui evolução progressiva. É degenerativa, casualmente episódica e, em alguns casos, contagiosa. Consabidamente, é uma das mais antigas doenças da Humanidade, chegando, muitas vezes, a ser encarada enquanto "qualidade" de saúde; foi sobretudo a partir do séc. XIX que a qualidade filosófica acabou por ser patologizada (grandemente à custa da própria filosofia...).

 

Principais manifestações:

A patologia apresenta diversos subtipos, mas possui algumas características basilares, nomeadamente ensimesmamento, dúvida constante, dialéctica inacabável, comportamento evitativo, desadaptação social, individualismo, narcisismo, espírito martirizador, propensão para a contradição, bipolaridade, fragmentação das relações, ilusão de objectividade, dogmatismo, moralismo, pretensiosismo, grandiloquência, autoritarismo, imposição da verdade, discurso incompreensível e, enfim, um feitio maldito.

 

Antecedentes:

É provável que o paciente tenha sido educado por família ilustrada, com um ou mais membros castradores e/ou ausentes. Poderá ter sido solitário e, eventualmente, sofrido bullying. Possibilidades de adolescência reprimida e descoberta tardia do sexo.

 

Evolução:

Pode iniciar-se com tendências religiosas e/ou míticas, com possibilidade de desenvolvimento de uma adolescência com interesses científicos desmesurados e criticismo da crendice. Mais tarde, na vida adulta, o subtipo "espiritual" poderá tornar-se dominante, podendo manter-se o resto da vida sem alterações de maior. Este subtipo é caracterizado por preocupações teológicas, miticismo, eventualmente misticismo, crença insana numa ideologia e necessidade de fazer desta a única verdade. Poderá conter tendências esotéricas e messiânicas. O corpo é reprimido e a realidade questionada. A verdade é afirmada com totipotência e a ética imposta de forma repressiva. Tudo o que não estiver de acordo com o modo de pensar do paciente é considerado por este subjectivo e relativo. O "filósofo" poderá vir a preterir todas as formas indesejadas de relativismo, niilismo, anarquismo, cepticismo, cinismo, pessimismo, determinismo, naturalismo, positivismo, irracionalismo, psicologismo, materialismo e liberalismo.

 

Em certos casos, a realidade poderá vir a ser completamente denegada. O mutismo pode surgir em situações mais graves. A evolução da doença poderá fazer ressurgir um subtipo "materialista" em que o paciente toma subitamente consciência de que a fase anterior não passava de uma ficção do corpo, e que, afinal, tudo é subjectivo, construção, sublimação. Podem reaparecer interesses científicos (com ou sem deificação da própria ciência), mais tarde questionados subjectiva e dialecticamente, e modos vários de cepticismo. O paciente deixa de acreditar na liberdade, na razão, e pode até esboçar um interesse pela psicanálise. Neste subtipo, poderão surgir crises existenciais aplicadas ao "eu", que, a determinada altura, podem fazer regressar a anterior fase "espiritual". Situações há em que o subtipo "materialista" é dominante, iniciando e/ou prolongando a crise "filosófica", podendo ser ultimado pelo subtipo "espiritual", quiçá numa variante "pós-moderna". Em casos particulares, a doença evolui para o subtipo "relativista" (para alguns autores, uma variante do subtipo "materialista", da qual preserva as principais características), em que a dúvida volta a tomar forma e tudo deixa de ser palpável. O paciente deixa de acreditar no que quer que seja e as coisas são colocadas no respectivo contexto. Poderá tornar-se amoral, sendo possível e curiosamente justo e igualitário para com todas as morais possíveis. As relações tornam-se erráticas e, à semelhança do que acontecia com o subtipo "espiritual", poderá existir sublimação ego-teo-maníaca, desta vez projectando-se no topo de um grande nada. Pode tornar-se anarquista ou criminoso. Os subtipos "espiritualista" e "relativista" poderão, assim, degenerar em psicose. Os diferentes subtipos podem existir simultaneamente ou alternar consecutivamente.

 

Outros aspectos:

Considerada "nobre" durante milénios, a doença contribuiu para formular praticamente tudo quanto existe de "humano" (inclusive a mesma ética que permitiu enobrecer a perturbação, proteger o corpo dos mártires e mitificar os reprimidos, assim como a psicodinâmica que possibilitou reduzir tudo à vontade, ao poder e à culpa), pelo que todos sofrem da patologia. Não obstante, é conveniente evitar a relação com padecedores mais gravosos, pois existe um perigo de desumanização.

 

Falsos positivos:

Casos há em que estudantes de Filosofia ou formados na mesma se parecem com filósofos, não preenchendo, na realidade, todos os critérios requeridos ao (dia)gnóstico da patologia. Alguns dos primeiros consideram que "filósofo" é exclusivamente o que é formado em Filosofia, sinal óbvio de que se está perante um "falso positivo". Outro falso positivo, muito comum na pós-modernidade, constitui o partidário do "new age", pseudofilósofo geralmente sofredor de delírios e alucinações iluminadas, que é pouco mais do que um fã de spa. A perturbação "base" é comum, mas o conteúdo parco. Há, também, que realizar o diagnóstico diferencial relativamente a histerias, perturbações factícias, histrionismo, autismo, esquizofrenia, entre outras que podem assemelhar-se com o "filosofismo". Especial atenção com as conversas de café, algumas poderão ser genuína Filosofia.

 

Tratamento:

A psicoterapia é um recurso excelente para prolongar a perturbação, sobretudo se se proceder à racionalização do seu conteúdo. Por sua vez, o retorno à origem mata o filósofo, isto se o filósofo não matou primeiro o psicanalista (que sofre, deveras, de perturbação semelhável ou mesmo comum). A terapia cognitivo-comportamental tem mostrado alguns efeitos positivos. A medicação também é aconselhável, se bem que, podendo substituir o foco da neurose, poderá placebetizar e iludir.

 

Prognóstico:

Reservado, menos quando for "gnóstico", pelo menos aparentemente. Há que desconfiar dos imberbes inconscientes, alguns podem mesmo estar curados. Menos curados estarão, talvez, os que falam sobre a patologia.

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