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Crónica

Para uma Ordem dos Filósofos

E se fosse criada uma Ordem dos Filósofos?

Texto de Luís Coelho • 11/10/2017 - 15:53

Luís Coelho é fisioterapeuta e escritor

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A Associação Pró-Ordem dos Filósofos vem, por este meio, manifestar o seu desagrado com a corrente situação do profissional "filósofo" no território português, ressalvando o seu desejo de criar uma Ordem dos Filósofos, com a seguinte ordem de trabalhos:

 

1. Definir a profissão de "filósofo", reservada exclusivamente aos licenciados e mestres na área.

 

2. Definir o acto de "pensamento filosófico", que inclui toda a reflexão considerada racional e exclui as crenças e juízos inestéticos.

 

3. Definir o acto de "reflexão racional", ajuizando caso a caso, sobretudo aquando da presença da impureza emocional. À futura Ordem preza decidir o que pode ou não ser considerado racional, e, concomitantemente, o que pode ou não ser aceite enquanto "pensamento filosófico".

 

4. Denunciar os casos de usurpação de funções, com vista a punir todo o "acto de pensamento filosófico" não autorizado. Os "falsos profetas" serão proibidos, só se concedendo o dom da omnisciência aos "filósofos profissionais". Cabe à Ordem identificar os falsos iluminados e permitir o reino de Deus exclusivamente aos sócios com as quotas em dia. A futura Ordem considerará todos os "não filósofos" seres condicionados e sem possibilidade de serem livres, pelo menos sem a formação e autorização expressa da direcção.  

 

5. Denunciar as acusações de subjectivismo, ressalvando, desde já, que o filósofo não tem "ego" e que, como tal, o seu dogma é necessariamente objectivo. O dogma do "não filósofo" será considerado, então, produção do "ego", crença, opinião, só podendo, quiçá, ser objectivado após decisão da Ordem.

 

6. Rejeitar todas as tentativas de psicanalização do "filósofo", o que não deve impedir o "filósofo" de psicanalisar a sociedade, identificando a fragilidade, a razão de ser, de cada pensamento, em particular do não autorizado.

 

7. Criar as bases de uma sociedade de "valores" encarados como perenes e adjudicados pela Ordem, punindo o "livre pensamento", as heresias, e os relativismos, niilismos, cepticismos, cinismos, pessimismos, determinismos, positivismos/cientismos, egoísmos morais e naturalismos não autorizados. Todos estes serão considerados "apócrifos", sofísticos e falaciosos, especialmente se forem produzidos por um "não filósofo". Se defendidos por um inscrito na Ordem, este será identificado, multado e convertido. Se defendidos por "não filósofos", estes serão clarificados e convertidos, ou, no caso de resistirem, simplesmente ignorados enquanto "leigos". O pensador "pecaminoso" será visto como falso pensador, dissidente e profanador da ordem. Tardiamente, serão desenvolvidos os meios de uma saudável imposição e conversão, de modo a que os cidadãos não se cheguem sequer a sentir "perseguidos".

 

8. Reescrever a história da filosofia, apagando, consecutivamente, a importância dos filósofos relativistas, niilistas, anarquistas, cépticos, cínicos, pessimistas, deterministas, positivistas, irracionalistas, psicologistas, materialistas e liberais.

 

9. Criar a estrutura de uma sociedade onde o poder político possa ser devolvido ao rei-filósofo e a ciência à Filosofia profissional. O método científico só poderá investigar e descobrir o que a Ordem julgar oportuno para o "bem comum".

 

10. Iludir a sociedade, sugerindo os valores do "todo" e da "síntese", meio pelo qual serão promovidos os interesses da classe dos filósofos, pensados, obviamente, em nome do "todo" e da "síntese".

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